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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Essa dor é real?
Esses sentimentos são reais?
Essa dor tem sentido?
Eu morri pra o mundo
Mas na verdade nem sei existir
Tenho existido cada vez menos
Até uma flor existe mais que eu
Mas se a olho existimos as duas
Em silenciosa comunhão insignificante
As coisas me conhecem mais
Que as pessoas
Eu me rastejo por um muro
Deixa eu olhar um pouquinho mais do Sol?
Eu me rastejo sem saber onde chegar
Só sei olhar mais um pouquinho
Eu me rastejo pelos olhos da imaginação
Porque imaginar é onde me aproximo de existir
É onde eu finjo que ainda toco algo
As plantas trepadeiras tão frágeis parecem
Que não se sustentam firmes no solo
Sobrevivem de roçar delicadamente as coisas
Sua beleza se estende ao outro
São únicas mas ainda assim enfeitam
As mais diversas superfícies
Queria ser vestida por elas
Porque hoje a minha pele se apaga
A minha existência está vazia de toque
Queria uma coberta rasteira de planta
Algo nascer por fora de mim
É sufocante estar por dentro
Cubra-me vida
O muro é frio.
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018


sou uma sombra
não como as trevas da noite
talvez apenas aquele espaço
que todos procuram 
quando o sol está forte na pele
aquele lugar que olham de longe
querendo ficar debaixo
por um breve tempo
sombras são confortáveis 
um formato nulo
ausência crua de tons
a mistura do preto e branco
sempre me fascinou
me sinto antiga diante de tudo
a sombra denuncia o ser
e eu sou toda denúncia 
do não aparecer
não sei me revelar
fico cansada do meu rosto
sou uma geometria da solidão 
deita na minha sombra por mim
faz tempo que a desejo. 
sábado, 21 de outubro de 2017


Estou em casa, um beco sem saída que conheço tão perfeitamente, um beco escuro que muitos passam apressados, coberto de paredes pálidas, janelas que encontram outras janelas a sua frente como se tudo se abrisse para dentro outra vez. 
Becos parecem passagens para universos paralelos que ao olhar é como se entrar neles pudesse ficar preso em outra realidade, uma sensação estranha a noite como um congelar do tempo. A beira de um caminho interrompido, eu entro e seja o que for que estiver logo atrás quanto mais ando parece que as paredes se encontram nas laterais, o único alívio é saber que há uma entrada para tudo, a única coisa que aprendi desse beco é que ele se volta pra fora porque ele já está cheio de dentro tão cheio que dá pra ver até onde vai. 
Nessas paredes tão conhecidas, me pergunto, onde eu deveria estar agora? 
Eu sei como se entra aqui e quanto mais a brecha me convida mais a parede me atrai, rodeada pela presença de ter que atravessá-la, rompe-la  adiando a visão da entrada. 
Por um momento só procuro por saídas internas, outro lado, portas secretas e a brecha com o tempo turva e afilada faz crer que só há paredes. Até o céu é encaixado. Visão quadrada da luz.
Encostada em seu limite olho a minha entrada, todos os dias tenho que entrar nesse sonho ir até seu limite para enxergar mais uma vez que ele tem seu fim onde começou, como vim parar aqui, tenho que me lembrar que ele não acaba aqui dentro ou termina para onde vou, ele sempre começa dia após dia. Encostada nos limites do meu beco olho cansada a luz do alto de duas pequenas janelas me dou conta das minhas pernas, olho em volta e percebo que o beco é apenas a minha cama todos os dias. Um beco dentro de tantos outros becos do mundo afora.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017




Seja onde estiver, 
ouve essas músicas que te envio. 
Acho tão bonito que o homem em sua miudeza pôs entre as estrelas um toque do seu próprio brilho e não foi apenas as mais desenvolvidas tecnologias, mas um disco orbitando o universo e carregando a história da música, os sons que nos compõe em sua viagem. 
É tão formidável, você não acha? 
O quanto de som habita os lugares aparentemente inabitáveis e silenciosos, como um amor nunca revelado que transborda olhos e poros, é tanto pulsar. Aqueles lábios trêmulos que guardam uma angustiada palavra, que fala tanto que mal consegue dizer, mas há tanta expressão. E lá no intenso silêncio luminoso dos astros um disco viaja tão cheio de harmonia guardada. 
Escute-me, eu só sei piscar uma luz fraca, um sinal distante. 
Eu, viajante de minha própria pele, tentando levar algum som que só eu posso ouvir. 
Você visitante que passa entre minhas entranhas tão incerto, pode ouvir?
Tantas músicas gravadas que não sei até onde irão alcançar, eu vou me calar e deixar que elas toquem o que minhas mãos já não podem mais. Eu deixo tudo falar por mim quando não consigo falar, busco palavras onde não há letras na esperança de que isso possa ser maior do que minha voz. É preciso olhar como alguém um dia olhou que o som poderia levar nossa mensagem aos confins do universo. Passo cumprimentando os seus sistemas tão longínquos. Quantas vezes me entristeci por não saber falar tão facilmente, mas há tanto canto no subsolo, até a terra que tu pisas fala em ocultamentos, sementes escondidas nos mais distantes lugares esperando um remexer de terras. Eu sou essa terra adormecida, sou cada canto do que ninguém vê cantar. Sou esse disco viajando espaços da própria pele minha e do outro. Encontrando mundos de silêncio que falam tanto quanto uma terra toda habitada.
domingo, 6 de agosto de 2017


A sombra de minha imagem que vai
para um lado e outro
procurando uma forma de viver, 
conversando, barganhando
eu quantas vezes dou por mim parado e
olhando-a por onde passa,
quantas vezes indago e ponho em dúvida
que isso seja realmente eu;
mas entre os que me amam e 
no cantarolar estas canções,
ah não duvido jamais que seja eu
realmente. 




                                                            Folhas da Relva,
                                                                 Walt Whitman.
terça-feira, 25 de julho de 2017


Há um tempo em que nada
nos toca, o coração emudece
de tanto se enterrar vivo
o florescer se congela no tempo
não se sabe se o crescimento
se conservou ou se deixou atrofiar
o tempo em que a flor se acostuma
a tanto fechar-se
e tudo se adormece nessa temporada
de inverno dos sentimentos
quisera eu não sentir nada
mas nenhuma geleira é permanente
na aura do meu ser
meu coração inclina 
atraído pelos sóis

- um coração cometa.




Das pedras que me atiraste
no relento do meu ser
ouve-las dizer
que nasceram
musgos macios na dureza
é um vista tão reconfortante essa
de sermos cobertos
de relvas tão modestas
uma pedra vestida macia
como mãos que as acolhem
diante de toda a sua paralisia
tanta coisa que se espalha na gente
uma pequena flor que não se afunda
mas brota da superfície
de uma pedra esquecida.

                                           
                                                              "As pedras falam,
                                                                e estou calado."