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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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domingo, 6 de agosto de 2017


A sombra de minha imagem que vai
para um lado e outro
procurando uma forma de viver, 
conversando, barganhando
eu quantas vezes dou por mim parado e
olhando-a por onde passa,
quantas vezes indago e ponho em dúvida
que isso seja realmente eu;
mas entre os que me amam e 
no cantarolar estas canções,
ah não duvido jamais que seja eu
realmente. 




                                                            Folhas da Relva,
                                                                 Walt Whitman.
terça-feira, 25 de julho de 2017


Há um tempo em que nada
nos toca, o coração emudece
de tanto se enterrar vivo
o florescer se congela no tempo
não se sabe se o crescimento
se conservou ou se deixou atrofiar
o tempo em que a flor se acostuma
a tanto fechar-se
e tudo se adormece nessa temporada
de inverno dos sentimentos
quisera eu não sentir nada
mas nenhuma geleira é permanente
na aura do meu ser
meu coração inclina 
atraído pelos sóis

- um coração cometa.




Das pedras que me atiraste
no relento do meu ser
ouve-las dizer
que nasceram
musgos macios na dureza
é um vista tão reconfortante essa
de sermos cobertos
de relvas tão modestas
uma pedra vestida macia
como mãos que as acolhem
diante de toda a sua paralisia
tanta coisa que se espalha na gente
uma pequena flor que não se afunda
mas brota da superfície
de uma pedra esquecida.

                                           
                                                              "As pedras falam,
                                                                e estou calado."    
segunda-feira, 17 de julho de 2017


Será que um dia alguém olhou
outras rosas e se lembrou de mim
sem flor 
e me desejou assim mesmo?
Ainda não sou flor
e nasci para ser flor?
Sou do relento
das cores adormecidas de inverno
dos galhos que ramificam
para ser sem enfeite
do vento
tenho afinidade com o gelo
e vejo beleza nos tons secos
quero ser o frescor
de uma mutante folha
que adoráveis são as folhas
tantas vezes pisoteadas
que se desprendem
para renascer no mesmo ponto
uma só folha
quantas passagens de cores
nada permanece na cor
que nasce
uma folha enfrentando o vento
combina mais com meu desalinho
flores
eu me aproximo de ti 
no despetalar do ser
que perdendo os seus vestidos
ainda forra o chão de delicadeza
quero ser aquela queda suave
de cheiro
alguém passou aqui 
e soube se deixar.


sábado, 15 de julho de 2017



Ela é um mundo gelado
olhando a primavera
mas não seria o inverno
tão mágico que esconde 
debaixo de si
uma primavera adormecida?
não seria nesse inverno
que algumas coisas
ao se congelarem
são protegidas
é deslumbrante olhar a natureza
e saber que até a beleza dorme
e tudo se derrete outra vez
revelando uma coisa 
dentro de outra
talvez esse inverno em ti
te mostre o som faiscante
do que desperta
sobre esse manto frio
descansa tudo 
que pode florir
Então ela olha de novo
para esse mundo tão branco de si 
e diz
ela é um mundo gelado
que vela a primavera
é um sussurro de beijo frio
um cristalizado doce 
pronto para se desfazer 
esse inverno é tão atento
aos pássaros que vão retornar
trazendo sementes voadoras 
que se espreguiçam sob os seus pés
Ela é um mundo gelado
um jardim coberto.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016


I

Dói-me o coração, e aflige meus sentidos
Um torpor de sono, como se eu tivesse
Bebido da cicuta ou esgotado há um só instante
Um lânguido narcótico e descido para o Lete:
Não porque eu inveje a tua boa sorte,
Porém porque me alegro ao ver-te assim feliz,
Que tu, arbórea Dríade das asas leves,
Em nesga melodiosa
De um verdor de faias e de sombras incontáveis
A plena e fácil voz celebras o verão.

II

Oh! um trago de vinho! que se tenha refrescado
Longa idade no seio da profunda terra!
Que saiba a Flora e a campos verdejantes,
A dança, a canto provençal e a júbilo queimado pelo sol!
Oh! uma copa que transborde o quente Sul,
Cheia da verdadeira, da Hipocrene rubra,
Tendo a piscar nas bordas bolhas como pérolas
E uma boca de púrpura tingida!
Que eu pudesse bebê-la e sem ser visto abandonasse o
                                                mundo,
E contigo esvaecesse na floresta escura!

III

Esvair-me bem longe, dissolver-me e em tudo me olvidar
Daquilo que entre as folhas tu jamis sentiste,
A fadiga, a febre e a inquietação,
Aqui, onde os homens sentam para ouvir gemidos uns 
                                          dos outros,
Onde a paralisia faz a tremer uns poucos, tristes, últimos,
                                           cabelos cinza,
E a juventude empalidece e morre espectralmente
                                            macilenta;
Onde apenas pensar é encher-se de tristeza
E de desesperança de olhos plúmbeos;
Onde à beleza não é dado conversar olhos brilhantes,
Nem, além do amanhã, a um novo amor languir por eles.

IV

Ao longe, ao longe! Para ti quero voar,
Não no carro de Baco e seus leopardos,
Porém nas asas invisíveis da Poesia,
Embora o cérebro, pesado, hesite e me retarde.
Já estou contigo! meiga é a noite,
E talvez em seu trono esteja a Lua, essa rainha,
Tendo a enxamear-lhe em torno as suas fadas estelares.
Mas aqui não há luz,
Senão aquela que dos céus com as brisas é soprada
Por entre sombras verdejantes e caminhos tortos e
                                             musgosos.

V

Não posso ver que flores a meus pés se encontram,
Nem que perfume suave paira sobre os ramos,
Mas adivinho, em treva embalsamada, todos os aromas
Com que o mês favorável dota a relva,
A moita e as árvores frutíferas do mato;
O branco pilriteiro e a rosa brava pastoril;
A violeta que logo murcha oculta sob as folhas;
E de meados de maio a primogênita,
A rosa almiscarada que reponta cheia de orvalhado vinho,
Pouso de moscas murmurante pelas noites estivais.

VI

Às escuras escuto; e muitas vezes,
Quase que enamorado da tranquila Morte,
Doces nomes chamei-lhe em versos meditados
Para que dissipasse no ar o meu alento;
Agora como nunca eu acho que morrer é uma riqueza:
Findar a meia noite sem nenhuma dor,
Enquanto em torno a ti vais derramando a tua alma
Com todo esse arrebatamento!
Cantarias ainda; e em vão teria ouvidos eu,
Para teu alto réquiem transformado em terra e grama.

VII

Tu não nascestes para a morte, Pássaro imortal!
Não pisam sobre ti as gerações famintas,
A voz que ouço esta noite fugitiva foi ouvida
Em velhos dias por Imperador e por campônio;
Talvez o mesmo canto que encontrou caminho
No triste coração de Rute, quando, ansiando pelo lar,
Ela ficou chorando em meio ao trigo do estrangeiro;
O mesmo que encantou, vezes e vezes,
Janelas mágicas abertas sobre a espuma
De mares perigosos, num país de fadas já perdido!

VIII

Perdido! Essa palavra é como um sino
Que dobra para que de ti eu volte à minha solidão!
Adeus! A fantasia não nos pode iludir tanto
Como se diz, fada enganosa.
Adeus! adeus! tua plangente antífona se esvai
Além dos prados em redor, por sobre o riacho quieto,
Subindo a encosta da colina; e agora entrou a fundo
Nas clareiras do vale próximo;
Foi isso uma visão, ou um sonho que sonhei desperto?
A música fugiu: - Estou desperto ou estarei dormindo?



John Keats ♥ 
                                (traduzido por Péricles Eugênio).

quarta-feira, 23 de novembro de 2016


Esses dias uma planta secou e observei quanta beleza também há no seco, como há uma doçura melancólica nas cores secas, tudo é necessário.

Gosto de olhar as plantas que se agarram as pedras e vivem em meio à ferrugem, como acho interessantes as coisas enferrujadas, meus olhos gostam de habitar mesmo nas coisas secretas que povoam os lugares deteriorados. As pessoas estão acostumadas a ver só escombros, mas já sentiu o quanto de resistência brota do chão, comece olhar para aquela coluna toda rachada que permaneceu, aquela única folha que demorou um pouco mais.

Fiquei triste quando minha planta secou. A terra não era adequada, o ambiente estava muito abafado, eu estava tão adormecida em mim que me esqueci de regar, quando despertei meu espírito não deixei ser tarde para um novo vaso, uma terra macia e úmida para minha planta seca jazer, parecia um cemitério num belo vaso, mas a amava mesmo assim. Era a melhor despedida que eu poderia lhe dar, era meu jeito de dizer que eu ainda a via mesmo fraca, que sonharia por ela encher com sua vida tão independente de minhas mãos aquele vaso em verdor.

Continuei a tratar aquela planta seca como todas as outras, sempre dando de beber a sua pequena alma afundada na terra fofa, quantas vezes esquecemos que há uma vida silenciosa por debaixo do que tombou. As folhas secas começaram a enfeitar a terra como um tapete para minha plantinha meio morta. 

Até que chegou um dia, vi admirada depois de tanto tempo, ela vivia secreta, reguei com lágrimas seus novos brotinhos verdes, como espero vê-la inteira, continuarei a esperar-te completa. Agradeço as tuas engrenagens frágeis que me fizeram ter esperança nas coisas que esperam secas em algum lugar. Quantas coisas secas você já abandonou porque achou não ter mais beleza?  Há muita vida enterrada que espera ser elevada do que aparentemente desabou. “Ela não está morta, apenas dorme.”