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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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terça-feira, 18 de setembro de 2018



ele só queria ter onde cair
quem dera a queda fosse macia
quem dera cair fosse acolhimento
só queria cair talvez
em seus próprios braços
sentir mãos fortes sobre os ombros
apertados
caídas todas as resistências
mãos firmes sobre braços estirados
ficou pensando
enquanto deslizava
cansado de cair em si mesmo
cair em seus braços
que bem seria. 


quinta-feira, 30 de agosto de 2018



Os dias passam e já não
esperneio tanto com a vida
a substância desses dias
me colocam num lugar de 
anestesiamento depois de tanto
gritar em vão
como um animal enfraquecido,
mudo, insignificante diante
de seu próprio contorcionismo
e eu agradeço por chorar sem
sentir dor
por chorar tão baixinho que já não
sei mais o que estou sentindo
ainda ouço os passarinhos lá fora
o ruído que sai das coisas
só me comovem quando me deito
no meu completo silencio 
e deixo eles me cobrirem das suas vibrações
Há dias que não faço mais
barulho, encolhida
procurando na minha pequena
reserva de doçura algo em 
que me abrigar
faço doces como minha avó fazia
faço misturas mágicas de
sabores
mantenho cadernos de receitas 
combinados a poesia
transcrevo palavras, me lambuzo
de algum néctar, mel em paisagens que não existem
tento viver como se tudo fosse ficar
doce no final
Vovó, o que tanto ando esperando?
Queria voltar para a casa que 
ainda não tive
abrir alguma porta de morar
estou cansada de ter que ir
embora,
vovó, como faço pra ficarem mais
um pouquinho?
fazer as visitas gostarem de se acomodar?
Faz tempo que não gosto mais de leite
é de uma pureza que fujo
E que só me desce quando estou febril
e lembro como a sua quentura branca 
com pitadas de sal e açucar
fazem lembrar de um tempo que não volta mais
a inocência de que tudo se curaria em casa
Mas tenho aprendido vovó a me lembrar 
das coisas
de antes 
desses pequenos momentos de conforto
e cuidado que nem sabia que ficariam em mim
quando você se fosse.



quinta-feira, 16 de agosto de 2018




Os passarinhos ainda cantam por aqui
me transpassam a escuta os sons despercebidos
A sensação do som das coisas pequenas me chamam
quando minha mente se entorpece 
Os ouvidos seguem esses sons 
como quem procura uma concha no ar
Esses dias sonolentos 
me colocam perto de um riacho
perto de uma fonte escondida 
onde só há nuvens e verde
Eu posso caminhar descalça sem sujar os pés 
e nem sinto a aspereza do chão
Estou numa chuva de folhas  
caminho em almofadas de gramas
É tão bom encontrar a calma 
num estado de adormecimento 
eu vejo a paz num casulo 
de cobertas quentinhas
hoje não serei borboleta 
nem passarinho.



quinta-feira, 14 de junho de 2018

Essa dor é real?
Esses sentimentos são reais?
Essa dor tem sentido?
Eu morri pra o mundo
Mas na verdade nem sei existir
Tenho existido cada vez menos
Até uma flor existe mais que eu
Mas se a olho existimos as duas
Em silenciosa comunhão insignificante
As coisas me conhecem mais
Que as pessoas
Eu me rastejo por um muro
Deixa eu olhar um pouquinho mais do Sol?
Eu me rastejo sem saber onde chegar
Só sei olhar mais um pouquinho
Eu me rastejo pelos olhos da imaginação
Porque imaginar é onde me aproximo de existir
É onde eu finjo que ainda toco algo
As plantas trepadeiras tão frágeis parecem
Que não se sustentam firmes no solo
Sobrevivem de roçar delicadamente as coisas
Sua beleza se estende ao outro
São únicas mas ainda assim enfeitam
As mais diversas superfícies
Queria ser vestida por elas
Porque hoje a minha pele se apaga
A minha existência está vazia de toque
Queria uma coberta rasteira de planta
Algo nascer por fora de mim
É sufocante estar por dentro
Cubra-me vida
O muro é frio.
terça-feira, 6 de março de 2018



é preciso bastante imaginação
para não definhar
em um calabouço rapidamente
contando os dias como uma forma de segurar o nada
como forma de esperar uma saída, você conta
depois reconhece todo o lugar a sua volta
até que
não sobre tantos detalhes
você se torna obsessivo por ver
quer ultrapassar as camadas do olhar
cansativamente
a procura de vida no esquecimento
as vistas se acostumam a escuridão
vez ou outra a pequena grade da janela
anuncia o silêncio lá de fora
porque cá dentro do tormento
não há silêncio no calabouço
não há silêncio na torre mais alta
se você pudesse se jogaria lá do alto
a procura do som da queda
a procura da voz da pele
faz tempo que o vento faz falta
o vento
a água
a abundância dessas coisas
é como um abraço
quando a pele já parece não sentir mais nada
qual a maior saudade de alguém
que não vê mais a amplitude da luz do dia?
a saudade da pele parece gritar
e desejaria queimar no inferno solar
de tanto desejo
talvez ele lavaria sua alma no fogo
um prazer estranho em se tornar pó
mas ter se sentido em chamas
ver a luz e não poder senti-la
se não é a mais triste das dores.


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018


sou uma sombra
não como as trevas da noite
talvez apenas aquele espaço
que todos procuram 
quando o sol está forte na pele
aquele lugar que olham de longe
querendo ficar debaixo
por um breve tempo
sombras são confortáveis 
um formato nulo
ausência crua de tons
a mistura do preto e branco
sempre me fascinou
me sinto antiga diante de tudo
a sombra denuncia o ser
e eu sou toda denúncia 
do não aparecer
não sei me revelar
fico cansada do meu rosto
sou uma geometria da solidão 
deita na minha sombra por mim
faz tempo que a desejo. 
sábado, 21 de outubro de 2017


Estou em casa, um beco sem saída que conheço tão perfeitamente, um beco escuro que muitos passam apressados, coberto de paredes pálidas, janelas que encontram outras janelas a sua frente como se tudo se abrisse para dentro outra vez. 
Becos parecem passagens para universos paralelos que ao olhar é como se entrar neles pudesse ficar preso em outra realidade, uma sensação estranha a noite como um congelar do tempo. A beira de um caminho interrompido, eu entro e seja o que for que estiver logo atrás quanto mais ando parece que as paredes se encontram nas laterais, o único alívio é saber que há uma entrada para tudo, a única coisa que aprendi desse beco é que ele se volta pra fora porque ele já está cheio de dentro tão cheio que dá pra ver até onde vai. 
Nessas paredes tão conhecidas, me pergunto, onde eu deveria estar agora? 
Eu sei como se entra aqui e quanto mais a brecha me convida mais a parede me atrai, rodeada pela presença de ter que atravessá-la, rompe-la  adiando a visão da entrada. 
Por um momento só procuro por saídas internas, outro lado, portas secretas e a brecha com o tempo turva e afilada faz crer que só há paredes. Até o céu é encaixado. Visão quadrada da luz.
Encostada em seu limite olho a minha entrada, todos os dias tenho que entrar nesse sonho ir até seu limite para enxergar mais uma vez que ele tem seu fim onde começou, como vim parar aqui, tenho que me lembrar que ele não acaba aqui dentro ou termina para onde vou, ele sempre começa dia após dia. Encostada nos limites do meu beco olho cansada a luz do alto de duas pequenas janelas me dou conta das minhas pernas, olho em volta e percebo que o beco é apenas a minha cama todos os dias. Um beco dentro de tantos outros becos do mundo afora.