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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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domingo, 26 de outubro de 2025

 


Água límpida da nascente da alma

Eu preciso da água que nasce de mim

Não tenho como prever quando essa temporada de seca, mudez e frio vai durar

Eu mudei outra vez para a estação da mudez 

Depois de tão desesperadamente querer escrever querer expressar 

querer querer querer

Talvez transbordei demasiado que sequei toda minha fonte

E tenho que lidar com esse peito sedento por água límpida

Muita sede me habita sem que nada que eu consuma a sacia

É inverno em plena primavera que tanto esperei

Tenho sede de algo e a neve é minha única bebida

Gélida como o frio que sinto dos medos que me paralisam mais uma vez

Eu bebo as raspas de neve tentando imaginar um sorvete docinho

Mas não, a minha boca está tão seca de doçuras apesar de toda a minha natural docilidade

Eu tenho afinidade com doçuras mas não é disso que tento debilmente dizer

É algo mais interno que mesmo a boca percebe a incompletude 

É tanta a vontade de através das palavras poder mudar minha paralisia interior

Eu tenho me escondido como um animal que hiberna mas não sossega em sua toca

Esse animal se inquieta, se culpa, anseia por sair, se deprime, se força a não dormir e descansar porque ele deveria estar lá fora como todos os outros de sua espécie

Seus movimentos são dolorosos e quando ele percebe que não sabe acompanhar quer sumir para sempre em sua toca fria

Necessitando proteger algumas reservas que mal sabe como usar e torná-las palpáveis para o mundo

Tudo se volta mais uma vez para essa solidão de que ele não tem o que o mundo exige

E eu já gritei e chorei tanto que voltei para essa estação de pausa quando pensei que estava pronta para começar a mudar minha vida a fazer as coisas movimentarem no relógio que não cabe minha alma quebrada

De fato algo mudou para meu bem mas a seca que me arrasta nesse inverno me paralisa de agir com continuidade para beneficiar ainda mais a primavera que está existindo além de mim para algo que precisa de mim

A muito percebi que funciono por pausas mas não posso controlá-las quando tudo pede para eu ser mais rápida do que meu interior consegue e isso me deixa tão doente

Eu preciso me lavar, me limpar por dentro, beber a água da sabedoria de mim mesma

De quem realmente tenho sido a minha vida toda

Eu preciso aceitar essa minha estação muda, essa estação que tanto me incomoda até ela me mostrar o seu sentido

Estação da alma que tanto não sei explicar 

Quero voltar a derreter com facilidade pelas vicissitudes

Sentir a graciosidade do dia a dia que a secura me rouba

Não gosto de mudanças elas me deixam doente

E eu quero me sentir sã

Sábia de mim mesma

Sylvia Plath repetiu para si mesma

"Respirei fundo e ouvi a batida presunçosa do meu coração

Eu sou eu sou eu sou"

Eu quero encontrar nessa temporada que me pede para olhar para quem sou

Terei água limpa para beber e distribuir para quem amo 

A água de quem sou verdadeiramente sem me esconder 

Por enquanto libero essas palavras com gosto de aprisionadas em mim

Elas doem para sair, imperfeitas como são, mas elas querem gritar para mim mesma

Eu existo eu existo eu existo

E como uma bruxa invernal irei extrair do inverno meu cálice de cura. 




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