- Miss Nobody
- Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.
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E se dessa vez eu desistisse para sempre. Não mais amanhãs. Não mais me sentir perdida entre rostos e falas. Não mais me sentir de outro tempo, de outro mundo. Não mais acordar. Dormir para sempre. Eu sempre gostei de adormecer, talvez morrer dormindo seja o que todos sonham, da sensação entorpecente do quase, mas não, nunca gostei do súbito medo de desmaiar e perder a consciência. Contradições, eu sou medrosa e corajosa ao mesmo tempo. Não é desrespeito a mãe natureza desistir para sempre de ser carne, todos nós precisamos parar e pensar na morte por um instante e escrever como se estivesse perto do fim quem sabe para então valorizar o que tem. Eu penso que quero ser partícula outra vez, eu penso em voar esfarelada ao vento, me assoprar.
Essa é uma carta para não temer a morte, pois sim, eu a temo, respeito, me escondo, tento me proteger e ser imortal. Emily Dickinson em sua ousadia escreveu, "Porque não pude parar para a Morte – Ele parou para mim por bondade – Na carruagem só íamos Nós –E a Imortalidade." De algum jeito ela saberia que viveria e perpetuaria por suas palavras, ela confiou ao futuro seus sentimentos profundos. Eu não sou tão grande, sou pequena minha amiga Emily, mas desde cedo aprendi gentilmente com a morte, com a nossa fraqueza humana, nosso pouco tempo. Eu me desespero, sempre achei que teria pouco tempo aqui nessa terra, eu exagero, eu deixo tudo sair para não me arrepender de nem uma palavra não dita, não que eu fale tanto e o tempo inteiro mas algumas vezes saem muitas palavras, eu quero parar o tempo, eu quero voltar no tempo, eu quero fazer futuros, tudo no poder das palavras, meus dedos a única ferramenta que tenho de fazer acontecer o impossível, de me fazer ser vista, de me fazer real. Você acredita em mim onde você estiver que eu estou tentando tanto me materializar além dessas letras desengonçadas e cheias de erros e excessos, você acredita no quanto elas são verdadeiras e gritam e querem nascer e não morrer?
Eu em minha teimosia não quero que meu tempo seja roubado de mim, que minha vida seja roubada de mim, tirada a força bruta, que tudo pare sem sentido e inesperado, controlar sua própria morte, seu ponto final, antes do medo de se ver deixando as coisas pela metade, um silêncio sem explicação, a vida é triste nesse sentido. E alguém me disse que eu tenho uma inata inclinação a explicar detalhadamente tudo, principalmente, as coisas que sinto, como se sentisse necessidade de apalpar o invisível, o silêncio, o abstrato, o subjetivo de mim.
E se eu pudesse ter tempo de deixar tudo anotado, tudo do jeito que quero, como um testamento. Sim, mas sem heranças (talvez pequenas lembrancinhas inúteis) mas os últimos desejos de alguém que decidiu ir embora desse mundo e o mais importante que partiu em paz e de forma indolor do jeito que esperava. Não sei como, talvez esse dia chegue, eu estou deixando por escrito que amo margaridas e odeio aquelas guirlandas feias de flores mas uma coroa de flores na minha cabeça e um vestido branco como uma noiva meio bailarina que eu nunca imaginei que fosse mesmo acontecer, sapatinhos delicados de boneca, espero que eu deixe meu cabelo colorido, porque o arco-íris é a minha essência do outro meu lado do preto. Eu sempre deixei claro que não quero ficar embaixo apodrecendo na terra, eu não quero ir embora desse jeito, eu quero ser cremada, doar meus órgãos que sirvam, e virar pó de fada se sua imaginação puder sonhar comigo brilhando ao soprar ao vento um dia. Eu não quero ninguém olhando para mim em um caixão pois sou tímida até a morte, então por favor, não faça esse desrespeito a mim, vou deixar uma foto especial para olharem e me verem com meus olhos que apesar da escuridão que os tomava de repente sempre foram sonhadores, inocentes, puros em algum lugar. Eu queria tanto ter vivido uns cem anos ao seu lado. Eu queria tanto ver para que o amor serve. Eu queria tanto saber o que o amor poderia ser. Por enquanto eu não quero morrer, é só uma carta, eu sou o tipo de suicida que desiste de si mesmo em vida, que desiste dos sonhos, e eu também vou desistir do amor se você me deixar, desistir de acreditar sozinha. Eu já deixei de acreditar em tantas coisas, mas a morte continua soberana e o que há depois de lá também. Eu não sei pra onde vou, na morte só há o silêncio, vamos ouvir um pouco mais de música então? Eu penso nos meus gatinhos sem mim, no meu quarto cheio de tesouros pequenos da natureza que vão pro lixo talvez, nos livros que são tantos para se ler ainda, na natureza que poderia ser desbravada ainda. Queria que fosse meu companheiro de vida, não queria mais outras pessoas entrando e saindo do meu mundo particular, é tão doloroso que eu só quero desaparecer, pra algum lugar onde ninguém me conheça, eu poderia ir embora agora mesmo do mundo, mas ainda penso nesse lugar, ele não está longe, vou continuar solitária lá? Essa tristeza e vazio de um mundo que te exige esforço e trabalho constante vai me fazer infeliz lá? Não é esse tipo de vida que quero, eu quero um milagre, eu quero um sim. Vida me dá um sim! Antes que eu morra por mim mesma, é tão fácil morrer. Eu só quero um sim. Eu quero uma continuação constante até eu poder embora por conta própria.
Então eu olho para as plantas e todas as coisas fofas que decoro ao meu redor pra fazer dessa tristeza um chão macio de cair. Essa ainda não é minha carta final, mas quem sabe, ter um lugar lindo pra morrer, é tudo que eu planejo e desejo no meu fim. Enfim, morrer como uma princesa, a bela adormecida.
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