- Miss Nobody
- Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.
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quinta-feira, 9 de julho de 2015
Eu olho para esse espelho como quem procura algo que sabia onde estava mas não consegue se lembrar. Sinto-me como se estivesse presa em um reflexo e não encontro em todos os caminhos que olho de onde vem a matriz da luz que me tornou em forma. É como se eu olhasse para mim sem saber quem sou, como se eu contemplasse apenas uma sombra, uma distorção existente sem sincronia, todas as partes de mim estão desencontradas, e dos desencontros nascem labirintos. Tudo que vejo na frente desse espelho são labirintos. Quando olho, não vejo apenas uma imagem, enxergo bifurcações dentro de bifurcações, e tudo se torna em ramos e galhos tão abundantes que chego a senti-los em minha carne, tão penetrantes, tão profusos.
Eu olho para esse espelho como quem olha para algo que não está olhando, algo que você olha mas seu cérebro está amortizado em demasia e tudo que você consegue sentir são os seus olhos parados no tempo olhando para uma coisa que você não quer ver mas que se torna um ponto para paralisar seus olhos por um instante. Como um obstáculo para silenciar a visão.
Eu queria que o espelho tocasse uma canção pois minha expressão é muda. Uma melodia que o rachasse por inteiro para eu sair por fim dos seus cacos e ser pedaços por inteiro. Até a luz é feita de partículas, mundos minúsculos que formam um ser único. Para ser inteiro é preciso também ser pedaços.
Eu olho para esse espelho e a imagem parece tão distante que quase se assemelha a uma ponto, vejo ela solitária e pontilhada, como pequenos pixels, sim, pequenos pixels amontoados que mostram sua resolução. Até os pixels estão afastados. É tudo lonjuras, e nada parece-me real.
Esse espelho é só a minha alma olhando para minha carne.
De continuo observo esse espelho e ritualmente o observarei, porque só escrevo quando olho, e só olho porque reflete, a escrita é o meu único reflexo.
Eu olho para esse espelho porque sempre tenho o que olhar, ainda que distante, as coisas mais internas são aquelas observadas de um cantinho, escondido e quase invisível, como um amor platônico. Sim, eu me olho com um olhar platônico. Como alguém que observa secretamente um ser amado sem nunca ser descoberto.
Eu olho como quem está ternamente sendo olhado. Eu olho para que esses meus olhos pelo menos me amem. E mesmo se não me amarem, eu olho, pelo simples arfar de ser olhado.
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