- Miss Nobody
- Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.
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Eu não sei escrever sobre você,
Tudo se converte internamente
Como uma súplica,
um pedido que não é muito silencioso
Meus sentimentos são altos,
isso eu sempre soube
Eu assusto mas eu grito
Eu grito porque pra você eu não queria estar invisível
Eu quero que me veja
Eu quero que me sinta
Eu quero que me deixe entrar e ficar
Eu quero parar o tempo com você
Eu não tenho vergonha de pedir
Pedir o amor que tanto espero
Como quem pede em uma oração por um milagre
Eu não sei escrever sobre você
Porque você foi feito pra existir além das minhas palavras
Você foi real, palpável, tátil
É onde eu quero escrever
Nessa realidade que me é negada
Clarice Lispector também gritava
Intensamente selvagem:
"Eu te invento, realidade".
Eu invento,
Eu fantasio,
Eu imagino,
Eu romantizo,
Eu poetizo,
Eu escrevo,
Eu pinto e bordo,
Eu crio e recrio,
Eu vagueio
Eu eternizo.
E assim eu não sei escrever sobre você
sem te dar todo infinito de minhas mãos
que tanto acariciaram suas costas cansadas.
Eu não sei escrever sobre você,
eu quero me escrever em você,
viver em você escrevendo,
eu não desisti da palavra:
você.
os olhos dela são de vidro
e eu posso sentir
a leve melodia de águas tranquilas
quando por um instante
meus olhos encontram os dela
os olhos dela são de vidro
e eu posso ver
a delicadeza das águas límpidas
escondidas com silêncio
os olhos dela são de vidro
e eu posso entrar
para beber doçura sempre que olhar
os meus olhos são trovejantes
preciso entrar de mansinho
sem mostrar a tempestade
para que nos olhos dela
o encanto das águas bondosas
cantem para as pedras de gelo nos meus olhos
e me derretam lentamente
como as fontes aquáticas dela
os olhos dela
são aquários infinitos
que guardam o oceano pacífico.
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos).
Me abraça Fernando Pessoa, eu nasci pra ser tão ridícula, Drummond me abraça eu sou muito gauche na vida, Lispector não tem jeito eu vou ser sempre a boba, você mesma disse que é preciso também não ter medo do ridículo, e então minha amiga de alma, está aqui todo meu coração, um palhaço triste.

