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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021



Eu sempre tive comigo uma torre imaginária, dessas de contos de fadas, muito altas e antigas, cheias de labirintos e escadas, e apenas uma janela voltada pra frente ao infinito horizonte, onde conversar com a janela era a mais alta intimidade, um sentimento metafórico que nunca passa o da torre, e eu posso sentir empatia pela Rapunzel em sua torre e sua separação para com o mundo e as pessoas, o lá fora sempre foi uma realidade distante para mim. O lugar do abandono sempre foi meu lugar. Às vezes é estranho ser o resto, reminiscências ininterruptas. 

Esse é um mundo desconhecido mesmo às portas abertas, mesmo habitável e desenvolvido, ainda sempre aqui no meu peito será um mundo desconhecido, em que raras vezes meu coração o descobriu, e se abriu, entre imaginações e epifanias, entre sonhos tão bobos, nunca saberei explicar esse vazio de que não tenho sentido a vida, ou que sempre estive triste por parecer que falta muito para que eu sinta a vida, para que eu alcance essa vida que parece não ter começado, mesmo depois de aprender andar e cair, falar e ouvir, olhar e sentir, amar e doer, sonhar e morrer, ir e vir em minha torre de sentimentos. 

Eu sempre estive começando de novo coisas que não terminei, coisas que abandonei, coisas que mudei para outras por não ter continuado, eu comecei demais várias coisas, sou um depósito do inacabado sempre lotado de coisas que não consegui me materializar e ter uma mente em simultâneo, eu falhei em tudo que tentei e continuo falhando e começando mas a vida ela nunca vem? Ela não pode ser eu de perto e eu ser nela em corpo e alma? Nunca habitamos o mesmo espaço, essa é a sensação e agora eu já não tenho força de querer sair da torre, achei que um dia eu pudesse, nesse lá fora tão imenso em que eu cada vez mais não consigo habitar, sozinha no meio das multidões nunca pareceu o certo nunca pareceu pra mim, inadaptável mas o coração ao mesmo tempo já quis encontrar o caminho já desejou que a vida se encontrasse em mim, ou que me chamassem para essa vida de que todos parecem fazer parte menos eu, pra essa vida que eu pudesse sentir. 

Ultimamente mais do que nunca, eu não sinto mais o meu coração, não sei onde ele está e parece que ele nunca mais vai voltar, não sei mais como reativar ele na vida, eu que sentia demais, eu que sei que não sentir também era tudo o que eu pedia as vezes quando o sentir demais me esmagava o peito e não me deixava morar em mim mesma, e eu me apeguei ao vazio, ao não ser nada, a não aparecer, a não falar, a não querer que me vejam ou me sintam, porque não há nada aqui, e não há nada também que eu possa ser, as vezes que tento me imaginar ser algo seja em que tempo for são as vezes mais difíceis, eu não consigo me ver, eu não consigo acreditar, eu não consigo me materializar, eu não consigo ser real nesse mundo, meu corpo é um objeto estranho que eu vez ou outra também desconheço. 

Então aceito a torre, e me entrego ao não encontro, a reclusão, a não saída, entre esses livros que mal tenho forças de terminar de ler, entre tantos que também foram começados e não continuados, entre muitas palavras não escritas e deixadas nesse espaço pela metade e isso se repete porque sou eu a metáfora da não continuidade, das desistências e começos fracassados, um amontoado de vidas pela metade, de degenerações precoces. Não, tem algo em mim que não está acompanhando a vida e o tempo, que já se separou, que deixou tudo ir enquanto eu volto pra lugar nenhum, porque não consigo alcançar o que não sinto estar. 

Ainda que muitas vezes no passado nós vivemos e sentimos coisas piores que no presente mesmo entre todas aquelas dores, ainda havia alguma doçura que morava em mim, ainda havia em mim alguém que não deixava o coração morrer por nada e mesmo ele morrendo dava um jeito de ressuscitá-lo. Ela era uma salvadora de seu próprio coração, escrevia e imaginava como para poder sempre salvá-lo, ela lutou mesmo que sabia que iria cair e perder sempre, e tinha coragem de começar de novo depois dos erros, e chorava sempre, e sonhava mais, cantava em voz alta, se encantava com a música e as melodias, os sons sem palavras ou as vocalizações mágicas, sim ela adorava a palavra magia, era um adjetivo bonito para as coisas reais que escondiam em si uma poesia oculta e silenciosa que era necessário olhar mais profundo pra ver além e o que está bem perto, buscava tesouros de olhar nas coisas pequenas nas mesmices, os sinais de poesia, as descobertas que faziam o coração acelerar, a temperatura no coração fazer quenturas no corpo todo e escrever como jorrando esse calor. 

Mesmo ela sendo um mundo gelado e distante e a obscuridade sempre estar por perto a imaginação sempre a salvava ela dizia a si mesma, e era mais que tudo intima de si mesma, eu sinto falta dela entre tantas quebraduras, entre tantos remendos, entre tantas mudanças e recomeços perpétuos e desistências perpétuas na mesma velocidade, entre tantos adormeceres ela não acordou mais, nada a interessa mais, e o esquecimento tem sido seu melhor amigo, nada mais entra nada mais sai, e a torre permanece firme, sem desmoronar, e a janela aberta já não faz mais vontade de olhar, escrevo porque não tenho chaves, e lembro de Drummond ressoando "trouxeste a chave?" para lembrar-nos do reino das palavras enquanto penso podes me trazer a porta caro poeta? Quando já nem a janela me orienta mais?

E escrevendo para essa que fui, e para as tantas que não consigo ser, na iminência de mais uma desistência, entre todas as portas do mundo, de saídas e de entradas, eu só queria estar do lado certo pra mim e o melhor de tudo sentir estar realmente lá seja por dentro ou por fora. 



segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

 

Meu coração tem trinta anos

mas as vezes parece que ainda não nasceu

as vezes parece que já viveu tempo demais

eternidades e efemeridades de batida em batida

Trinta anos tentando harmonizar meu corpo

sem alto falantes ele bate

em águas paradas ou turbulentas 

segue seu ritmo quando as minhas estruturas tremem 

a música sai por inteira completa em todas suas intensidades

eu que por tantas vezes pareci estar por um triz 

e vazando

de apertos que não eram sanguíneos ou bombeados

me pergunto quantas vezes ele também se salvou sozinho

nas suas válvulas e fluxos além das minhas mãos e consciência

fazendo tudo fluir pelo menos por dentro

Meu coração tem trinta anos

ele suportou as flechas invisíveis 

tão certeiras em meu peito 

uma por uma fui tirando 

numa imensidão de camadas também invisíveis

o coração ainda bate lá 

no coração que parece guardar outro coração

quando tudo está dolorido 

eu o procuro debaixo de todas as camadas

para até além dele mesmo

pois um coração alojado em sua gaiola de ossos 

ele também parece distante e mesmo preso

e sua linguagem parece chamar outros nomes que não conheço

nessa caixa torácica 

nessa gaiola 

nesse canto compassado 

tão metricamente orquestrado de um corpo que ainda pulsa

lá está meu maestro do silêncio

em sua caixinha de fluxos musicais

em harmonia nas minhas desarmonias

regendo o peito aberto  

Meu coração de trinta anos

sei que estás aí

e como ouço

ardendo 

borbulhando 

esquentando a raiz de todas palavras 

que foram música sanguínea antes de tudo. 



domingo, 17 de janeiro de 2021




Em um lugar bem distante no coração existia um reino chamado desanimo, lá os dias eram todos ensolarados, a luz era tão branca que mesmo quente por fora remetia a um frio de dentro, sol quente lá fora frio aqui dentro desse corpo, era tão azul esse céu que doía olhar pra cima, clarão das distâncias, dizem que nada superou ainda a velocidade da luz nesses dias abertos e inalcançáveis parece uma eternidade de luzes a me atravessar, e mesmo assim pode parecer tão longa a luz em todas suas velocidades ininterruptas, a alma sente e eu me sinto velha nessa passagem luminosa, qual foi a ultima vez que você sentiu o céu perto o céu tão baixo porque seu coração estava flutuante nas alturas imaginárias, uma frase que eu ouvi muito na minha infância foi a de trazer o céu pra perto e em um tempo eu entendia e sabia como era essa sensação, estar ligado no céu, era uma metáfora bonita eu me sentia parte desse céu andava debaixo dele mas como se fosse lado a lado. 
Nem sempre estar ao sol receber sua luminosidade atinge regiões indecifráveis, a parte nutritiva do sol após um vento gelado é consoladora, um pequeno raio efêmero irradiando no meio do frio é acolhedor, outras vezes caminhar a luz aberta não parece ser tão alcançável assim, faz pensar numas partículas de luz própria interior que fazem falta mesmo no meio da abundância solar, algo das estrelas dentro de nós, algum chamado  algo que caminha com os seus pés e faz a caminhada flutuar até uma chegada, um brilho apaixonado como uma recém descoberta luminosa, algo sobre o nascer da luz. 
Nem sempre é sobre a luz no fim do túnel, as vezes é também muita luz para se enxergar mas nenhuma para se acender, e o coração se sente sem rumo a luz do dia, a sensação de estar na claridade mas não sentir nenhuma luz, ser dia e sentir vontade de algo se acender alguma luz sobre a luz, uma luz palpável ao coração íntima e aconchegante como uma vela, uma chama, apenas isso, quão poucas são as coisas de que a gente realmente precisa, e é por isso que essa luz tão pequenina tem nome de sentimento. 
Há dias saudosos que a alma guarda o resquício do que foi sentido mesmo não sendo mais visível mesmo que nem foi palpável nem tivera nome ou destino, é aquele momento de conexão em que a luz de fora conversa com a luz de dentro que vou chamar de ondas luminosas se encontrando, se fosse possível observar pelo microscópio da alma talvez seria como uma troca esfumaçada em que fluidos atômicos nos circundam entrando e saindo numa sensação de paz indescritível e amorosa, a harmonia cósmica. O contato é quase um som imperceptível, a luz e nossos sentimentos, a luz e nós numa conversa silenciosa. 
E eis que aqui se encontra um reino desanimado na abundância enérgica da luz, qual será a solução? Onde se pode chamar a luz no meio da luz? e se sentir sinceramente iluminada quando o coração nem mais oscila. Como acender a luz sem fio. Algo se apagou e mesmo sem fios condutores eu queria acreditar nessa luz que surge como uma pequena vendedora de fósforos, parece que foi a algum tempo que eu acendi o meu último fósforo, tão pequena e singela a chama nas minhas mãos trêmulas nos meus passos vagarosos quase sussurrantes pra que ela não se apagasse, eu protegi tanto essa chama, até absorver ela nas palmas das minhas mãos, queimei a minha pele antes dela se extinguir no desespero de ela ficar acesa por dentro, agora vivo com essa pequena chama esse pequeno resquício nas palmas das mãos marcada pela sua queimadura eu escrevo, para que ela possa se manter lá dentro das falanges pelo menos aquecida, me queimando pelo corpo inteiro eu a deixo, viajando em meu corpo como um fantasma luminoso que já não reconhece sua própria luz, quieta e propagando apenas o seu calor mortal sem saber mais o que é estar acesa. 







segunda-feira, 21 de setembro de 2020



Abelha! Aqui te espero! Eu ainda on-

tem dizia, a alguém que tu conheces, 

como estás atrasada.

As Rãs já estão em casa desde a últi-

ma semana, os Passarinhos voltando,

o Trevo está no ponto.

Lá pelo dia dezessete receberás esta

carta. Escreve, ou, melhor, vem logo.

Cordialmente, Mosca. 

            

                        Emily Dickinson,




 


 



Esta, minha carta para o mundo,

Que nunca escreveu para mim

Simples novas que a Natureza

Contou com terna nobreza.

Sua mensagem, eu a confio

A mãos que nunca vou ver

Por causa dela - gente minha

Julgai-me com bem-querer. 


                           Emily Dickinson, 





domingo, 26 de julho de 2020



E eu também desbotei
soltei a cor
quebrei galhos
despetalei
caí sequei
eu parte dos fragmentos da natureza
eu também decomponho 
desmorono em terra
cores gastas que se recompõe em outras cores
num lugar despovoado vim cair
o vento me deitou longe das minhas raízes
tão leve essa morte que a queda é um deitar
ainda sentia as últimas seivas de vida
esvaindo 
as cores se apagarem
e na minha solidão achei que iria sumir
tudo foi ficando escuro se fechando em mim
um interior comprimindo nos últimos líquidos
resistindo com delicadeza em manter seus formatos 
foi quando mudei de cor
eu estava inteira de um jeito diferente 
não desapareci de mim 
intacta e em outro tipo de vida
na outra extremidade da paleta de cores
seca
nua
claríssima 
e mais facilmente quebradiça 
foi quando ela não pisou em mim
me colheu do chão 
como quem colhe um tesouro esquecido 
me carregou dentro de um livro 
me olhou com a gentileza das palmas das mãos
eu permaneci uma folha uma marca uma vida do que fui
eu vivi a minha forma seca 
estive em páginas e caixinhas 
num quase cemitério de delicadezas e fragilidades
de histórias já secas e amareladas 
com a beleza de emoldurar a lembrança de uma folha, 
da marca da passagem dos tempos e dos estágios da vida
histórias finalmente vistas através das cores empoeiradas
quem me diria que morrer teria ainda tanta história de viver assim
que eu depois de ser árvore fui folha além dos galhos e das cores
uma simples folha que permaneceu viva depois de morta
pelo simples fato de ser olhada 
de ser guardada 
de ser preciosa a alguém
e sermos histórias dentro de histórias 
na memória de quem acolheu.






sábado, 13 de junho de 2020



Num jardim de coisas obscuras vivia uma menina, nesse lugar onde as coisas cresciam com dificuldade ela aprendera a cantar para as árvores, a falar a linguagem melódica do vento nas folhas, desde cedo achava que quando as árvores balançavam seus galhos enquanto falava e cantava era como se lhe entendessem, a voz, o vento, a extensão da eternidade num abraço dançante de folhas, era o seu segredo. 
Nas noites tristes e solitárias, ela sempre ia até aquela mesma árvore e do alto sabia que naquele lugar suas lágrimas eram sagradas, recebidas e bebidas por algum ser noturno, foi aquela árvore que lhe ensinou sobre o silêncio e o segredo dos sentimentos, a linguagem pura das lágrimas. 
Como uma brisa noturna e um céu faiscante de porque's, ela achava tão ancestral e misterioso o quanto o vento era convidativo a se refletir, o céu era um ímã, o som sempre foi seu guia, tateava pelos ouvidos algo além, um rastro tão cheio de vida esse vento que lhe espalhava as lágrimas anoitecidas, ela caminhava os pensamentos mudos por entre as folhas que balançavam como uma força que leva os seres minúsculos em atração circular, o coração caminha em órbitas tão singulares.
Chorar parece um segredo, pensava, ensina sobre a poesia, sobre o indecifrável das palavras, é uma capacidade humana repleta de desabrochar e aberturas, e tão semelhantemente nos lembra da chuva, essas coincidências minúsculas e curiosas instaladas na existência quase imperceptíveis mas tão cheias de significação a faziam-na se deslumbrar um pouco para fora das suas tristezas, mais tarde saberia o quanto esses detalhes a fizeram sair, coisas que lembram de outras coisas era seu passatempo favorito de solidão, como uma criança catando folhas na memória, amando as suas infinitas formas, suas variáveis cores, espalhadas, seu lugar sempre fora entre as folhas, das árvores e plantas ou dos papéis, encontrava ali uma fragilidade irmã, um sopro da sua quietude.
As árvores se tornaram suas amigas mais antigas, tinha um respeito e reverência a passar por elas, estavam ali a tão mais tempo e ainda as mais jovens entre elas levavam em sua estrutura a beleza do que cresce demoradamente em silêncio, mas de forma nenhuma é muda, há tantas vozes numa árvore só, quando ela se sentia pequena e sem fala, pensava nisso, há tantas vozes numa árvore só, composições, harmonias, árvore falantes existem, o silêncio de crescer faz um baita som oculto das profundezas.
Ela voltava outra quando as lágrimas se fundiam com a natureza, ela voltava outra quando as lágrimas pareciam ter lhe banhado inteira. E voltava àquele lugar secreto tantas vezes, viver é uma lembrança, ela viria a viver disso, de pequenas lembranças quando tudo parecia escuro, esquecido.
Por muito tempo ela teve que viver com a sensação de não saber o que falar entre as pessoas, na sua cabeça distanciada rodeava perguntas de como deveria ser, como deveria agir, o que as coisas tinham a lhe dizer, tudo sussurrava pelos cantos quando estava sozinha era mais fácil adivinhar os segredos dos lugares, os sons ocultos, as pessoas ela só olhava de longe aquele amontoado cheios de linguagens  e expressões que ela não sabia se compreendia tão bem, doía o peito ter que ser dali, fora tão acostumada a só olhar que não queria ir até lá, era como se colocasse uma planta que só entende de ventos do lado de uma pessoa era o bastante estar ao lado, ela só balançava não queria ter que falar ali, pessoas misteriosamente para ela eram repletas de códigos, faces, só conseguia associar uma por vez, e logo retornava ao seu lugar onde tudo era mais noturno onde sempre se pedia pra descansar o dizer das coisas, sair da penumbra era difícil, e ela só queria conseguir tornar aquele lugar sombrio em que cresceu em algo florestal, foi quando o coração aprendeu a plantar de tudo o que se imaginava, alimentar histórias e visões, enfeitar o lugar de onde não podia sair, e então ela encontrou a poesia, aquilo que se encontra e percebe que sempre esteve dentro de você antes mesmo de saber o que era ou o seu nome, a poesia se revelou desperta de dentro dela, vestiu suas terras esquecidas, amar poesia é já ter um punhado dela dentro de si, ela disse a si mesma:

no meio dos espinhos onde me criaram
cresceu um ramo de carinho em mim
brotou das raízes pesadas
em mim essa ternura triste
tem uma linguagem incrustada em meu peito
do que ainda não vivi
quero colocar a linguagem do meu amor em alguma coisa
nasci com uma cicatriz chamada sensibilidade
vez ou outra ela me abre pois sou frágil
frágil de amor
o amor me feriu
e eu só enxergo brechas
não quero o que tampe essas minhas brechas
é por elas que enxergo
é por elas onde a beleza entra e sai
é por elas que eu aprendi de onde eu vim
precisei ser frágil
para brotar além dos espaços entre os espinhos e raízes
pequena através de passagens obscuras
senti falta da beleza do outro lado
cresço de pouco em pouco 
indo além da escuridão desse lugar
nesse jardim de coisas obscuras
sinto falta de mãos suaves 
abrindo lugares novos nessas minhas terras
não sei explicar para o mundo 
essa falta do que não vivi
do que sei só de nome
do que parece sempre do outro lado
cansada de crescer só
eu enfrentei os espinhos
virei planta no meu coração
estou calada olhando a linguagem do mundo
não compreendo a multidão de vozes
ouço de um canto das minhas brechas
quando estou nesse lugar aberto
eu olho lá fora pela fenda de mim
como alguém que ficou de fora
e que ouve pelas beiradas
o som de um única voz
o vento
mestre desse vazio de mim
e nesse canto tão distante
as palavras que colhi lá de longe
foi assim que aprendi
sendo tocada por lonjuras

Os olhos dela tinham mãos o coração queria ter pernas caminhava pelos ouvidos olhando as coisas como que para ver nelas seus nomes, era as extensões que aprendera com as árvores, se esticar de um mesmo lugar, expandir de seu próprio corpo, só assim conhecia como sair de si mesma, como as plantas faziam a criar caminhos por entre as coisas que parecem tão rígidas, as folhas flutuando os galhos e troncos, criando rios e cascatas de verde, imitações curiosas da natureza, se você se atentar saberá que há muitas delas, a natureza é uma grande metafórica, nós a interpretamos para nossa sobrevivência nos ensinando sabiamente caminhos para sair de nós mesmos, desde a primeira vez que o homem entendeu o céu e sua ordem harmônica, seu cosmos.
Era bom os dias que ela saia de si mesma, só pela compreensão das coisas vistas, ela saiu do lugar amortecido das raízes obscuras, aprendera assim que o amor acreditou nela ainda ela mesma não acreditando quando tudo ao seu redor parecia não condizer com esse nome tão propagado, algo que não sabia dizer a protegeu fez brotar esse desejo de saber o que era para além das mesmas coisas ressequidas que conhecia, quais estações ainda a esperavam? quais cores poderia ver além daquelas? o que ainda poderia brotar? 
O amor é mais uma semente de invisível, dispersada solitária pelas asas do vento, nunca se sabe onde vai cair ao certo, talvez assim chegara onde ela estava mas chegara mesmo ao fundo de seu coração? E ela onde ela poderia chegar? Ser colhida ou ser espalhada? Plantada pelo vento ou acariciada pelas mãos? Sementes envelhecidas e guardadas no esquecimento do seu próprio esconderijo de semente. 
Seu coração dizia, quero me plantar em ti que olho mas nunca vejo, enroscar meus galhos na tua existência já perene, como uma árvore abraçada por laços verdes rasteiros, delicadamente hóspede da tua pele. São os contornos da existência, os enfeites naturais dados as pedras, aos troncos, envoltos de detalhes, compostos singulares, existências que se acompanham, cada uma no seu próprio crescimento. Contornos e não preenchimentos, algo como uma segunda pele, sentir-se habitada na própria flor da pele.
Ela gostava do vazio, certa vez com muito medo precisou se esconder e não ser vista, precisou do vazio, é um lugar, como o lugar secreto de sua árvore amiga, é pra lá que você corre quando não pode falar com ninguém, e quando não há ninguém por perto e você deixa passar os pensamentos como o vento, limpos e do jeito que você está sem ter que modificá-los moldá-los pra virar palavras, sem nenhum embelezamento de vir a ser. Lugares vazios pra sentar, almejava lugares vazios pra sentar, você pode sentar no vazio, como quem senta numa praça depois de andar na cidade, e quem sabe assim, outro vazio também encontra um lugar vazio ao seu lado, duas existências sentadas a contemplar o nada. Esse é o tipo de vazio de quem se acostuma ao silêncio das árvores, mas o vazio é imenso, e por vezes ele é cheio de si mesmo, o vazio já é cheio.
Senta comigo nesse vazio, até o fim desse texto. Poucos são os que podemos sentir sentados ao lado do nosso vazio, e poucas são as vezes que nos encostamos no vazio um do outro.
Estou como uma folha em branco, eu sou essa folha em branco já algum tempo, eu posso ser fazer qualquer coisa com ela mas não faço nada, hesito em uma única folha e a mantenho em branco, quero saber o que fazer dela, o que deveria estar aqui? É a minha história, eu sei, e tantas coisas acontecem no meu mundo de sentimentos, oh folha, às vezes eu sinto que não vou sair daqui, eu trocaria essa história pra repousar segura em um abraço íntimo, e começar por ele, alguém pra começar essa folha em branco comigo e contar por ela em segredo que é o meu corpo em branco que agora está falando. 
Estou desistindo velha árvore parece que essa folha de que tanto hesito é a última folha a despregar de uma gigante árvore uma folha pequenina a única que restou do vento e eu quero saber como finalmente deixá-la ir, sinto a secura querer me tomar como se nas bordas do coração estivesse solidificando, estou com medo do que não vou querer mais, estou com medo do não sentir mais, do que nunca virá, desse outro lado que me cansei de só olhar. 
Eu tento respirar no meio de uma solidificação, pelo centro desse seio dentro e fora não foi o contorno de cascas que queria que me tocasse e se eu me esquecer do que é sentir, e se eu já tiver esquecido, o que irá sobrar no centro de mim, como uma árvore a se engrossar de tronco, firme e segura, não é fácil se tornar árvore, não é fácil escolher ficar e conhecer a rigidez dessa expansão, estou com medo e não consigo pensar no que virá depois, parece tão solitário aqui, espero velha árvore que eu ainda conheça os galhos depois desse processo, poder abraçar o vazio lá de cima, ser um contorno de imensidão e sentir sentarem ao lado do meu vazio, entender o pouso do pássaro, os casulos, as tocas, depois de tanto me esconder ser o esconderijo de muitos, entender as moradias e as visitas, ainda não tenho galhos suficientes e densos, exteriores e extensos, mas como os sinto me perfurar pra sair, estou com medo da minha própria forma parece doer ficar aqui esperando que eles venham, ver a carne se tornando circunstância de árvore ainda no seio, pouco a pouco parecer deixando de ser carne, formar anéis e contornos por dentro estruturas de atingir a superfície, eu preciso do primeiro galho, do primeiro assento, da primeira sombra, do primeiro toque, eu preciso da superfície, mesmo com medo eu preciso sair daqui de dentro.