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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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sexta-feira, 3 de maio de 2024


Julho de 1880.

Meu caro Théo, 


É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos. 

Até certo ponto, você se tornou um estranho para mim, e eu também talvez o seja para você mais do que você imagina; talvez fosse melhor para nós dois não continuarmos assim. É possível que nem mesmo agora eu lhe tivesse escrito, não fosse o fato de eu me sentir na obrigação, na necessidade de lhe escrever; não fosse o fato de você mesmo me fazer sentir esta necessidade. 

Soube em Etten que você tinha me enviado cinquenta francos. Pois bem, eu os aceitei. Certamente a contragosto, certamente com um sentimento bem melancólico, mas estou numa espécie de beco sem saída ou de atoleiro, como fazer de outro modo? 

E é portanto para agradecer que lhe escrevo. 

Como talvez você já saiba, voltei ao Borinage[4], meu pai me disse que seria melhor ficar pelas vizinhanças de Etten: eu disse que não e acredito ter agido melhor assim. Involuntariamente, tornei-me na família uma espécie de personagem impossível e suspeito, seja como for, alguém que não merece confiança. A quem poderia eu ser útil de alguma maneira? 

É por isto que antes de mais nada, sou levado a crer, seja vantajoso, e melhor resolução a tomar, e o mais razoável, que eu vá embora e me mantenha a uma distância conveniente, que eu faça como se não existisse. 

O que para os pássaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis, são para nós, seres humanos. Podemos permanecer neste tempo de muda, podemos também deixá-lo como que renovados, mas de qualquer forma isto não se faz em público, é pouco divertido, e por isto convém eclipsar-se. Pois seja. 

Agora, por mais que reconquistar a confiança de toda uma família, talvez não totalmente desprovida de preconceitos e outras qualidades igualmente honoráveis e elegantes, seja de uma dificuldade mais ou menos desesperadora, eu ainda tenho algumas esperanças de que pouco a pouco, lenta e seguramente, a cordial compreensão seja restabelecida com uns e outros. 

Assim é que em primeiro lugar eu gostaria muito de ver esta cordial compreensão, para não dizer mais, restabelecida entre meu pai e eu, e desejaria muito que ela igualmente se restabelecesse entre nós dois. 

Compreensão cordial vale infinitamente mais que mal-entendido. 

Preciso agora lhe aborrecer com algumas coisas abstratas, no entanto gostaria muito que você as escutasse com paciência. Sou um homem de paixões, capaz de, e sujeito a fazer coisas mais ou menos insensatas, das quais às vezes me arrependo mais ou menos. 

Muitas vezes me ocorre falar ou agir um pouco depressa demais, quando seria melhor esperar com um pouco mais de paciência. Acredito que outras pessoas também possam às vezes cometer semelhantes imprudências. 

Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me como um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não. Mas trata-se de por todos os meios tirar destas paixões o melhor partido. Por exemplo, para falar de uma paixão entre outras, tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão. Você poderá entender isto. Quando eu estava num ambiente de quadros e de coisas de arte, você sabe muito bem que fui tomado por uma paixão violenta, que chegava ao entusiasmo. E não me arrependo, e ainda agora, longe dele, muitas vezes sinto saudades do mundo dos quadros. 

Você talvez se lembre bem que eu sabia perfeitamente (e pode ser que ainda o saiba) o que era um Rembrandt, ou o que era um Millet, um Jules Dupré, um Delacroix, um Millais ou um Maris? Bom – agora não estou mais neste ambiente, no entanto esta coisa que se chama alma pretende-se que não morre jamais, e que vive sempre e busca sempre mais e mais e ainda mais. 

Em vez de sucumbir de saudades, eu disse: “O país ou a pátria estão em todos os lugares”. Em vez de me deixar levar pelo desespero, tomei o partido da melancolia ativa enquanto tinha a potência de atividade, ou em outras palavras, preferi a melancolia que espera e que aspira e que busca, àquela que embota e, estagnada, desespera. 

Portanto, estudei mais ou menos seriamente os livros ao meu alcance, como a Bíblia e a Revolução Francesa de Michelet, e, no último inverno, Shakespeare e um pouco de Victor Hugo e Dickens, e Beecher Stowe e ultimamente Ésquilo e muitos outros, menos clássicos, vários grandes pequenos mestres. Você bem sabe que, entre os que se classificam como pequenos mestres encontram-se um Fabritius ou um Bida. 

Agora quem é absorvido por tudo isto às vezes é chocante, shocking para os outros, e sem querer peca mais ou menos contra certos usos e formas e conveniências sociais. 

No entanto, é pena que se leve isto a mal. Por exemplo, você sabe que frequentemente eu negligenciei meu asseio, eu o admito, e admito que isto seja shocking. Mas veja bem, a penúria e a miséria contribuíram de algum modo para isto, e depois às vezes este é um bom método para garantir a solidão necessária, para poder aprofundar mais ou menos este ou aquele estudo que nos preocupa. 

Um estudo muito necessário é o da medicina, não há um homem que não tenha desejado conhecê-la um mínimo que seja, que não tenha procurado saber pelo menos de que se trata e, veja, eu ainda não sei nada disto. Mas tudo isto me absorve, tudo isto me preocupa, tudo isto me faz sonhar, imaginar e pensar? Já fazem agora talvez cinco anos, não sei ao certo, que vivo mais ou menos sem lugar, errando aqui e ali. Agora vocês dizem: desde tal ou qual época você caiu, você se apagou, você não fez mais nada. Será que isto é totalmente verdade? 

É verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos; é verdade que minha situação pecuniária está num triste estado; é verdade que o futuro me é bem sombrio; é verdade que eu poderia ter feito melhor; é verdade que só para ganhar meu pão eu perdi tempo; é verdade que meus próprios estudos estão num estado lamentável e desesperador, e que me falta mais, infinitamente mais do que o que tenho. Mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada? 

Talvez você diga: mas por que você não continuou como gostaríamos que continuasse, pelo caminho da universidade? Não responderei mais do que isso: é muito caro; e ademais este futuro não seria melhor do que o de agora, no caminho em que estou. 

Mas no caminho em que estou devo continuar – se eu não fizer nada, se não estudar, se não procurar mais, então estarei perdido. Então, ai de mim. 

Eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário. 

Mas qual é o seu objetivo definitivo?, você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço e o esboço que se torna quadro, à medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a ideia, no início vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro, a menos que o fixemos. 

Você deve saber que entre os missionários acontece o mesmo que com os artistas. Há uma velha escola acadêmica muitas vezes execrável, tirânica, a abominação da desolação, enfim, homens que têm uma espécie de couraça, uma armadura de aço de preconceitos e convenções; estes, quando estão à testa dos negócios, dispõem dos cargos e, por meios indiretos, buscam manter seus protegidos e excluir os homens naturais. 

Seu Deus é como o deus do beberrão Falstaff de Shakespeare, “o interior de uma igreja”, the inside of a church”; na verdade certos senhores missionários (???) se acham por uma estranha coincidência (e talvez eles próprios, se fossem capazes de alguma emoção humana, ficariam um pouco surpresos de aí se acharem) plantados no mesmo ponto de vista que o beberrão típico tem das coisas espirituais. Mas há pouco a temer que algum dia sua cegueira a este respeito se transforme em clarividência. 

Este estado de coisas tem seu lado ruim para quem não está de acordo com tudo isto, e que de toda sua alma, de todo coração, e com toda a indignação de que é capaz, protesta contra isto. 

Quanto a mim, respeito os acadêmicos que não são como estes; mas os respeitáveis são mais raros do que acreditaríamos à primeira vista. Agora, uma das causas pelas quais eu estou agora deslocado – e por que durante tantos anos estive deslocado – é simplesmente porque tenho ideias diferentes das desses senhores que dão cargos àqueles que pensam como eles. Não se trata de uma simples questão de asseio, como hipocritamente me censuraram, é uma questão mais séria que isto, posso lhe garantir. 

Por que lhe digo tudo isto? Não é para me queixar, não é para me desculpar naquilo em que eu possa ter mais ou menos errado, mas simplesmente para lhe dizer isto: Quando de sua última visita no verão passado, quando nós dois passávamos perto da caverna abandonada que chamam de “A Feiticeira”, você me lembrou que houve uma época em que também passeávamos os dois perto do velho canal e do moinho de Rijswick, “e então”, você me dizia, “nós estávamos de acordo sobre muitas coisas, mas”, você acrescentou, “desde então você mudou muito, você já não é mais o mesmo”. Pois bem, isto não é bem assim; o que mudou, é que minha vida era então menos difícil, e meu futuro aparentemente menos sombrio; mas quanto ao meu íntimo, quanto à minha maneira de ver e de pensar, nada disto mudou, e se de fato houvesse alguma mudança, é que agora eu penso e acredito e amo mais serenamente aquilo que na época eu também já pensava, acreditava e amava. 

Seria portanto um mal-entendido se você persistisse em acreditar que, por exemplo, agora eu seria menos caloroso por Rembrandt ou Millet ou Delacroix ou quem ou o que quer que fosse, pois acontece justo o contrário, apenas, veja você, há várias coisas em que acreditar e amar, e há algo de Rembrandt em Shakespeare, e de Corrège em Michelet, e de Delacroix em Victor Hugo e ainda há algo de Rembrandt no Evangelho e algo do Evangelho em Rembrandt, como queira, isto dá mais ou menos na mesma, desde que se entenda a coisa como bom entendedor, sem querer desviá-la para o mau sentido e se levarmos em conta os termos da comparação, que não tem a pretensão de diminuir os méritos das personalidades originais. E em Bunyan há algo de Maris ou de Millet e em Beecher Stowe há algo de Ary Scheffer. 

Agora, se você pode perdoar um homem que se aprofunda nos quadros, admita também que o amor aos livros é tão sagrado quanto o amor a Rembrandt, e inclusive acredito que os dois se completam. 

Gosto muito do retrato de homem de Fabritius que certo dia, ao passearmos também os dois, contemplamos longamente no museu do Harlem. Bom, mas eu gosto da mesma forma de Richard Cartone, de Dickens em sua Paris e sua Londres de 1793, e eu poderia ainda lhe mostrar outras figuras estranhamente comoventes em outros livros, com semelhanças mais ou menos impressionantes. E acredito que Kent, um personagem do Rei Lear de Shakespeare, é tão nobre e distinto quanto uma figura de Th. de Keyser, embora Kent e Rei Lear tenham supostamente vivido muito tempo antes. Isto para não dizer mais nada. Meus Deus, como é belo Shakespeare. Quem é misterioso como ele? Sua palavra e sua maneira de fazer equivalem a um pincel fremente de febre e emoção. Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver. 

Portanto, você não deve acreditar que eu renegue isto ou aquilo, sou uma espécie de fiel na minha infidelidade e, embora mudado, sou o mesmo e meu tormento não é mais do que este: no que eu poderia ser bom? 

Não poderia eu servir e ser útil de alguma maneira? Como poderia saber mais e aprofundar este ou aquele tema? Como você vê, isto me atormenta continuamente. Além disto, sinto-me como um prisioneiro de meu tormento, excluído de participar nesta ou naquela obra, e tendo estas ou aquelas coisas necessárias fora de meu alcance. Por isto sentimo-nos melancólicos, e sentimos grandes vazios ali onde poderiam existir amizades e elevadas e sérias afeições, e sentimos um terrível desânimo corroendo nossa própria energia moral, e a fatalidade parece poder colocar obstáculos aos instintos de afeição, e uma maré de desgosto nos invade. E então dizemos: até quando, meu Deus? 

O que você quer? O que se passa no íntimo revela-se exteriormente? Fulano tem uma grande chama queimando em sua alma, e ninguém jamais vem nela se esquentar, e os transeuntes só percebem um pouquinho de fumaça no alto da chaminé e seguem então seu caminho. E agora, o que fazer? Sustentar esta chama interior, ter substância em si mesmo, esperar pacientemente, e no entanto com quanta impaciência, esperar, dizia, a hora em que alguém desejará aproximar-se – e ficar? Que sei eu? Quem quer que acredite em Deus, que espere a hora que cedo ou tarde chegará. 

Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois que tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça, mas no caso de acontecer alguma mudança para melhor, computaria isto como um ganho, ficaria contente, e diria: “Enfim, afinal havia alguma coisa”. Mas no entanto – você dirá – você é um ser execrável, já que tem ideias impossíveis sobre a religião, e escrúpulos de consciência pueris. Se os tenho impossíveis ou pueris, possa eu me livrar disto, é tudo o que peço. Mas veja mais ou menos o ponto em que me encontro. Você encontrará em O filósofo sob os tetos, de Souvester, como um homem do povo, um simples operário muito miserável que seja, se imaginava a pátria. “Você talvez jamais pensou no que é a pátria”, retomou ele pousando uma mão em meu ombro, “é tudo o que te envolve, tudo o que te criou e te alimentou, tudo que amaste, este campo que vês, estas casas, estas árvores, estas jovens que passam ali rindo, são a pátria. As leis que te protegem, o pão pago por teu trabalho, as palavras que tu trocas, a alegria e a tristeza provenientes das coisas ou dos homens entre os quais vives, são a pátria. O quartinho onde outrora viste tua mãe, as lembranças que ela te deixou, a terra em que ela repousa são a pátria. Tu a vês, tu a respiras em todos os lugares. Imagines os direitos e os deveres, as afeições e as necessidades, as lembranças e o reconhecimento, reúne tudo isso numa palavra e esta palavra será a pátria”. 

Ora, da mesma forma tudo o que é verdadeiramente bom e belo, de beleza interior moral, espiritual e sublime nos homens e em suas obras, acredito que vem de Deus, e tudo o que há de ruim e de mau nas obras dos homens e nos homens, não é de Deus, e Deus também não o acha bom. 

Mas involuntariamente sou levado a crer que a melhor maneira de conhecer Deus é amar muito. Ame tal amigo, tal pessoa, tal coisa, o que quiser, e você estará no bom caminho para depois saber mais, eis o que eu digo a mim mesmo. Mas é preciso amar com uma grande e séria simpatia íntima, com vontade, com inteligência, e é preciso sempre procurar saber mais, melhor e mais. Isto conduz a Deus, isto conduz à fé inabalável. 

Para citar um exemplo, alguém que ame Rembrandt, mas ame-o seriamente saberá que há um Deus, e Nele terá fé. Alguém que se aprofunde na história da Revolução Francesa – não será incrédulo, verá que também nas grandes coisas há uma potência soberana que se manifesta. 

Alguém que tenha assistido, mesmo que por pouco tempo, ao curso gratuito da grande universidade da miséria e que tenha prestado atenção às coisas que seus próprios olhos veem e que seus ouvidos percebem, e que tenha refletido sobre isto, também acabará por crer e talvez aprenda mais do que imagina. Procure entender a fundo o que dizem os grandes artistas, os verdadeiros artistas, em suas obras-primas, e encontrará Deus nelas. Um o terá dito ou escrito num livro, outro, num quadro. 

Depois, leia simplesmente a Bíblia e o Evangelho: isso dá o que pensar, muito em que pensar, tudo em que pensar. Pois bem, pense este muito, pense este tudo, isto eleva seu pensamento acima do nível ordinário, independente de você. Já que sabemos ler, leiamos então. 

Depois, às vezes pode-se até ficar um pouco abstraído, um pouco sonhador. Há quem fique abstraído demais, sonhador demais; talvez seja o que ocorre comigo, mas é minha culpa. Afinal, quem sabe, não havia motivo para isto. Estava abstraído, preocupado, inquieto por uma ou outra razão, mas a gente se refaz! O sonhador às vezes cai num poço, mas dizem que logo ele se reergue. 

E o homem abstraído, em compensação, por vezes também tem sua presença de espírito. Às vezes é um personagem que tem sua razão de ser por um ou outro motivo que não distinguimos à primeira vista, ou que, na maioria das vezes, esquecemos involuntariamente. Fulano, que andou agitado como se estivesse num mar tempestuoso, chega enfim ao seu destino; um outro que parecia não valer nada e ser incapaz de exercer qualquer função acaba por encontrar uma e, ativo e capaz de agir, mostra-se totalmente outro do que parecia à primeira vista. Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo. 

Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes. 

Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas, por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”. 

Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes. Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor. “Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. 

Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis. Tenho tudo o que preciso. Ah! por bondade, liberdade! ser um pássaro como outros.” 

Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo... 

E os homens ficam frequentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível. 

Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros. 

Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros. 

Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade? 

Você sabe o que faz desaparecer a prisão. E toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar, isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. 

Mas aquele que não tem isto permanece na morte. 

Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida. 

Além disso, às vezes a prisão se chama preconceito, mal-entendido, ignorância, falta disto ou daquilo, desconfiança, falsa vergonha. 

Mas para falar de outra coisa, se eu caí, por outro lado você subiu. E se eu perdi simpatias, você por seu lado as ganhou. Eis o que me deixa contente; falo sério e isto sempre me alegrará. Se você fosse pouco sério e pouco profundo, eu poderia temer que isso não durasse muito, mas como acredito que você seja muito sério e muito profundo, sou levado a crer que isto durará. 

Só que se lhe fosse possível ver em mim algo mais que um vagabundo da pior espécie eu ficaria muito contente. Então se eu puder alguma vez fazer algo por você, ser-lhe útil em alguma coisa, saiba que estou à sua disposição. 

Se aceitei o que você me deu, você também poderia, caso de alguma forma eu puder ajudá-lo, pedir-me: eu ficaria contente e consideraria isso uma prova de confiança. Nós estamos muito distantes um do outro e podemos ter pontos de vista diferentes; contudo, em dado momento, algum dia, poderíamos ajudar-nos um ao outro. 

Por hoje eu lhe aperto a mão, agradecendo novamente a bondade que você teve comigo. 

Agora, se mais cedo ou mais tarde você quiser me escrever, meu endereço é chez Ch. Decrucq, rue du Pavillon 8, em Cuesmes, perto de Mons. 

E saiba que escrevendo-me você me fará bem. 

Do seu, 

VINCENT (133). 


( Eu, caro leitor, sou tão grata por essa carta existir, certamente de um homem que pintava além das telas dos quadros, ele também pincelava palavras. Essa é uma das cartas mais sinceras e sensíveis que li em toda minha vida, lembro o momento exato de nosso encontro em dias cansados em que eu me sentia uma fracassada (como ainda sou) mas como a cinderela servia aos outros com tudo o que eu tinha sem saber se uma carruagem me levaria para um mundo de fantasia que eu tanto fugia mentalmente. Essa carta me abraçou e até hoje me abraça em todas as suas linhas, falando com minha alma sobre o que existe para além do exterior, aquilo que poucos em nossa vida toda irão ver. Assim como esse homem e tantos outros artistas só veio o reconhecimento após a morte e é tão triste quando em circunstâncias de suicídio. Uma vida invisível. Eu posso me ver nesse pássaro, meu caro amigo Vincent, foi na biblioteca pública que encontrei o livro que continha essa carta, e no meu refúgio no sótão da casa de vovó eu lia suas palavras com entusiasmos, paixão, encontro, coisas que sinto tão raramente no presente, onde a apatia vence a cada dia. Mas eu lembro como abracei o livro em lágrimas por saber que minha alma não estava sozinha, que outro alguém se sentia como me sinto, e eu sinto, caro Vincent, que minhas opções de viver esgotaram, mas ainda quero que seja diferente, que a tristeza não vença, que eu me apaixone novamente pela vida assim como você se apaixonou pelos mundos dos quadros, das tintas, cores e texturas. Meu muito obrigada por você, pelas suas palavras, pelo quadro os comedores de batata (que é meu favorito) pois retrata a humildade da repartição, a união na hora de dividir a refeição, o afeto).




sábado, 9 de março de 2024





Ilustração Haylee Morice.

 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

 


    Edgar Allan Poe escreveu num de seus poemas que tudo que ele amou, amou sozinho. Eu aprendi muito isso, o quanto amar é solitário. E doloroso. Mas eu amei mesmo assim. Amei mesmo sabendo o quanto dói mas eu cansei de doer, cansei de andar sozinha enquanto olho todos felizes, brincando e sorrindo no parquinho longe de mim, sempre aqui do outro lado, escrevendo para salvar minha vida. Eu sempre fui uma espécie de receptáculo para as pessoas, elas vinham em busca de consolo, paciência, acolhimento da calma, bondade e amor, lealdade e companheirismo, eu não sei mas sempre tive mesmo sem receber de sobra. Eu criei essa fortaleza que todos procuravam de amor, mesmo eu parecendo tão solitária de vez em quando aparecia alguém assim. Eu protegi em minhas asas e senti medo por elas, eu recebi suas dores como minhas, eu sangrei, eu me importei. Está tão frio hoje aqui dentro de mim, nos meus ossos, na minha pele e dentro da minha cabeça, é difícil dizer o quão doloroso é acordar assim, com esse frio da solidão, do abandono, da rejeição, contraditoriamente a essas pessoas que iam e vinham, elas tinham outras pessoas e eu sempre ficava sozinha depois porque eu dizia a mim mesma, eu sei lidar com minha própria solidão, eu e ela somos companheiras a vida inteira, ela sabe meus segredos, meus desesperos, meus medos, minhas fraquezas sem me julgar, mas eu nunca deixei de receber um desses pássaros feridos que passam uma temporada em meu coração buscando cura antes de me deixar. Eu nunca prenderia um passarinho em uma gaiola. Até porque eu sei o que é estar em uma gaiola, eu sempre aceitava a partida até não aguentar mais esconder de mim mesma a triste verdade de só precisarem de mim por um tempo. Meu corpo, minha gaiola. Eu vi ele livre uma vez apenas. Fora de mim, em outro, no corpo de outro. Os pássaros feridos, sempre vão embora, e a minha dor quando um chega é pensar quanto tempo esse ficará, ele está aqui apenas para receber, eu sempre fui boa em cuidados, cuidar das pessoas, eu quase fui enfermeira, quase fui médica. Eu desisti. Mas você tinha tanto talento sempre dizem, pode ser, mas nem tudo que temos talento é o que é para nós, é o que conseguimos fazer, é o que queremos seguir. Eu usei todo meu talento nos meus avós, nos meus familiares, toda minha preocupação e cuidado. Eu fiz o meu melhor, e no processo, amadureci, tive experiencias com a vida e com a morte. Principalmente a morte, que antes eu temia tanto como uma sombra sobre mim desde a infância e pelo excesso de medo de que um deles morresse se eu não desse o meu melhor, se eu não fizesse tudo certinho, mas essas coisas nem sempre dependem de nós e eu me cobrei bastante mas não me arrependo do meu trabalho bem feito e das noites angustiadas e de dores no corpo e na alma, eles estavam vivos mais um dia e eu podia lhes mostrar o carinho e o amor mais um dia, ensinar algo que eu tinha em mim pra compartilhar com eles, a delicadeza, a doçura, a atenção, a sensibilidade e empatia, qualidades que acho que tenho e que sempre ousei usar em excesso. 

    A morte me ensinou que ela vem para cada um de uma maneira, eu vi duas mortes completamente diferentes, eu interpretei como quando alguém está pronto para ela e já estava esperando e consegue ir em paz enquanto outro não estava pronto e lutava contra ela, não sei como ela é, mas é triste em ambas as visões, o silêncio cansado, o nada, o vazio. Dizem que quem decide morrer, porque a morte não está em nossas mãos, vai para algum lugar aí ruim, acho muito indelicado de se dizer tal coisa. Você só sabe que é comido pelos vermes e se junta a terra e ao ciclo da natureza, o que mais viu além disso. Dizem que é egoísmo decidir ir embora da terra, decidir a hora da partida, que não está em nossas mãos esse destino, bem eu não gosto de surpresas e mudanças repentinas ainda mais se forem muito ruins, morte planejada. Eu queria mesmo ir embora desse planeta talvez por isso penso que é melhor virar partícula do que ficar presa aqui nesse chão, me solte no espaço astronauta, deixe eu orbitar, até chegar ao espaço interestelar. 

    Eu te digo, a morte é egoísta, ela não pensa em quem você é ou o que fez, em que ou quem ficar, ela só leva, as vezes nem dá a chance de se despedir, de ir em paz, de ser sem dor. Não temos poder sobre a vida e a morte de nenhum outro ser humano nem de nós mesmos, nos ensinaram, mas fazem filhos criam a vida sem planejar, tudo lições fracassadas e sem sentido, e tiram a vida uns dos outros pior do que animais selvagens, egoístas iguais. Eu sempre escolhi a vida. Mas a vida não sei se anda escolhendo a mim, me sinto cada vez mais distante dela, isolada, com muito frio por dentro, em meus ossos, uma melancolia e tristeza profunda que pouquíssimos poderiam entender, é como se eu estivesse viva e esquecida em um necrotério, sentindo muito frio, muita solidão, muita consciência de tudo que sinto e de seus significados. Está muito frio, eu repito, as vezes é difícil acordar com essa consciência de frio em plena luz do dia, então eu choro bastante porque o frio abre um buraco de doer e dentro desse buraco o frio puxa para dentro, range em meu peito violentamente, não há nenhum abraço ao redor, é triste como estar presa em um necrotério viva.   

    Eu só estou escrevendo caso aconteça alguma coisa triste, eu que sempre fui medrosa começo a perder tudo até isso, eu pensava comigo mesma, o medo te salva de muitas coisas inclusive de ainda estar aqui nessa terra. Mas eu ainda estou esperando algum resquício de esperança que me prenda aqui, porque está cada dia mais difícil acreditar em mim e no amanhã, por mais que invente meu futuro não me parece real e palpável. Eu queria dizer que eu quis muito um abraço esses dias em que eu pudesse chorar sem parar, berrar de boca aberta todos esses ecos, é assim que eu choro de gritar mas ninguém ouve, acho que nunca tive isso, poder ser fraca e cair em um abraço sem hesitação, aceita. Esses dias tenho tomado banho frio mas era na água quentíssima que eu queria repousar meu corpo, queimar a tristeza da minha pele, sinto falta do seu abraço. Eu existo mais aqui escrevendo, eu sinceramente queria ficar no meu quarto para sempre assim como Emily Dickinson se isolou em si mesma e em seus poemas e vestia branco. Mas está tudo apertando. Eu não devo desculpas, eu passei a minha vida toda me desculpando, me culpando. Vai doer a minha falta? O meu potencial desperdiçado, a minha juventude perdida? É isso? Eu sempre me senti velha demais, cansada demais, sempre achando que ia morrer cedo e jovem. Você estava olhando direito? Eu andava murchando e me alto regando, sou uma jardineira da alma, por isso cuidei tanto desse jardim interior que poucos entraram ou realmente quiseram ver, eu ainda o protejo. Gosto do título O Jardim Secreto, eu sou ele. Mas agora eu estou me fechando cada vez mais, num ponto sem retorno, eu queria acreditar que esse jardim sobressaísse meu corpo porque está tão frio, eu queria ver a primavera do lado de fora uma vez. 

    Eu perdoei meus pais por tudo, meu coração está puro apesar de que ando com raiva, me mostro irritada quase explodindo, como se ninguém pudesse me tocar, muda, ou exigente demais, é que estou tão machucada que estou erguendo as minhas defesas, está tudo muito doendo, então eu fecho a cara mas também choro sem pudor, me derramo, está tudo bagunçado, eu sou duas dentro de uma, as vezes é muito cansativo mudar, transitar, metamorfosear, estou cansada. Não sei mais o que quero ser. Realização, um amor pra vida toda, casa dos sonhos, acho que não consigo sozinha agora que você me deixou, já gritei demais, eu sonhei demais e eu quis tanto ser real, esses dias ouvi o comentário infeliz de que eu "deixei o tempo passar demais" mas tudo que sou é invisível, tudo que sinto é rejeição do mundo inteiro, erro de estar vivo, me sinto tão sozinha, eu não consigo mais, vocês não podem ver como está tudo dolorido aqui dentro, eu sofri demais aqui dentro de mim mas não sei porque, nasci com essa ferida na alma, essa doença rara, esse amor inconsolável. Faz tempo que eu não sei o que é sorrir de verdade, sorrir profundo, sinto como se meu rosto todo desmoronasse algumas vezes, tudo fora do lugar e minha boca tão pra baixo mesmo que eu me esforce para sorrir. Ando triste vendo as pessoas fazerem planos, eu sempre estive tão solitária nesses planos, doía tanto porque tudo sempre ficava pela metade e era muito esforço que eu fazia para encontrar soluções e começar tudo de novo, eu não conseguia me realizar, não sei o que é isso, vivo muito na minha imaginação e ninguém vai me aceitar no mundo assim. Outro amigo vai se casar, e me dói lembrar toda a minha rejeição profunda, não quero viver para ter que ver você de longe sendo feliz sem mim, já vivi demais assim, do outro lado, eu quero ir embora pra sempre, e independente disso todos seguirão e continuarão e serão felizes sem mim, eu sei disso, "a realidade não precisa de mim". Estou chorando tanto porque dói sentir todo esquecimento, você se tornar um nada, em vida é pior do que a morte muitas vezes, será que alguém entende essa dor, não é todo esquecimento que me dói, me dói é ninguém se lembrar todos os dias que quer me amar, me dói ver que ninguém faria isso por mim, de todas as escolhas, escolher a mim, me dói esse esquecimento, dói como a morte. Porque eu queria, mas só vi nos outros acontecer, mas eu nunca pude fazer nada, só chorar comigo mesma, a minha dor.

    Do outro lado desse mundo, como um planeta feito pra estar distante do Sol, do sistema solar exterior, eu gosto de Netuno e Uranus. Mesmo que eu estivesse do lado de dentro me sentiria errada, talvez já tentei muito estar mas nunca fiz parte desse sistema, eu vivi sobre a imaginação de não ser daqui, cresci com esse sentimento reforçado até por algumas palavras, mas não acredito em paraísos, acho que nunca acreditei. Há muitos lugares inefáveis aqui, Emily Dickinson diz sobre tudo o que é incógnito se valia a pena ir a sós, ver sozinho tantas maravilhas e não ter pra quem olhar pra o lado e dizer, está vendo isso também, era essa a vida que eu sonhava. É assim que me sinto toda vez que olho pro lado e você não está aqui, eu não te esqueci e faz tanta falta não poder compartilhar a vida que eu poderia ter tido, de ter algo lindo para cuidar e ver crescer, mas se não é com você não quero passar por isso de novo, você vai me esquecer como todos e eu vou estar aqui presa do outro lado sempre olhando, mas eu posso fechar meus olhos de uma vez por todas, descansar dessa dor, dessa solidão. Eu sei que você é uma boa pessoa, mas as palavras me machucam muito, eu sinto muito cada mudança ruim, eu não sirvo mais para esse mundo. 

    Sinto falta da minha avó, e do elo de amor verdadeiro que vi dentro dos olhos dela. Também sentiria muita falta da minha mãe apesar de tudo e é melhor eu ir embora antes, eu continuo a criancinha preocupada na escada esperando a chave rodar ao escurecer e se aliviar que sua mãe chegou, eu queria poder te levado pra longe e ver você se sentir valorizada e amada, eu não consigo usar minhas palavras em voz alta as vezes e tão pouco minhas ações, eu faço muito pouco, eu não tenho nada e já não tenho tanta energia nem para as tarefas de casa e obrigada por suportar meus fracassos, minha falta ânimo e muitas vezes fazer por mim. Tem tanto sobre mim que talvez saibam tarde demais ou talvez seria melhor não saber. Eu sempre serei a irmã preocupada, eu nunca guardo ódio em meu coração, mesmo quando me ferem, então eu ainda desejo que meus irmãos de sangue cresçam melhor do que eu, sejam melhor do que eu, eu quero o melhor pra eles e fico orgulhosa por ver crescerem mais do que eu. Eu sinto que não cresci o bastante pra essa vida, nada parece precisar de mim, o que é uma distorção, mas meu coração está acabado, eu não consigo acreditar mais em mim, existe alguma mão que me levante desse chão, eu só vejo costas. O que vocês vão se lembrar de mim quando revirarem meu quarto, minhas palavras, minha alma, será que alguém vai procurar os meus pequenos tesouros escondidos. Eu só pude deixar poesia, eu só pude deixar amor embalado, eu só pude deixar um olhar gentil e cheio de perdão, eu só pude me deixar. 


    

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

 


    E se dessa vez eu desistisse para sempre. Não mais amanhãs. Não mais me sentir perdida entre rostos e falas. Não mais me sentir de outro tempo, de outro mundo. Não mais acordar. Dormir para sempre. Eu sempre gostei de adormecer, talvez morrer dormindo seja o que todos sonham, da sensação entorpecente do quase, mas não, nunca gostei do súbito medo de desmaiar e perder a consciência. Contradições, eu sou medrosa e corajosa ao mesmo tempo. Não é desrespeito a mãe natureza desistir para sempre de ser carne, todos nós precisamos parar e pensar na morte por um instante e escrever como se estivesse perto do fim quem sabe para então valorizar o que tem. Eu penso que quero ser partícula outra vez, eu penso em voar esfarelada ao vento, me assoprar. 

    Essa é uma carta para não temer a morte, pois sim, eu a temo, respeito, me escondo, tento me proteger e ser imortal. Emily Dickinson em sua ousadia escreveu, "Porque não pude parar para a Morte – Ele parou para mim por bondade – Na carruagem só íamos Nós –E a Imortalidade." De algum jeito ela saberia que viveria e perpetuaria por suas palavras, ela confiou ao futuro seus sentimentos profundos. Eu não sou tão grande, sou pequena minha amiga Emily, mas desde cedo aprendi gentilmente com a morte, com a nossa fraqueza humana, nosso pouco tempo. Eu me desespero, sempre achei que teria pouco tempo aqui nessa terra, eu exagero, eu deixo tudo sair para não me arrepender de nem uma palavra não dita, não que eu fale tanto e o tempo inteiro mas algumas vezes saem muitas palavras, eu quero parar o tempo, eu quero voltar no tempo, eu quero fazer futuros, tudo no poder das palavras, meus dedos a única ferramenta que tenho de fazer acontecer o impossível, de me fazer ser vista, de me fazer real. Você acredita em mim onde você estiver que eu estou tentando tanto me materializar além dessas letras desengonçadas e cheias de erros e excessos, você acredita no quanto elas são verdadeiras e gritam e querem nascer e não morrer? 

    Eu em minha teimosia não quero que meu tempo seja roubado de mim, que minha vida seja roubada de mim, tirada a força bruta, que tudo pare sem sentido e inesperado, controlar sua própria morte, seu ponto final, antes do medo de se ver deixando as coisas pela metade, um silêncio sem explicação, a vida é triste nesse sentido. E alguém me disse que eu tenho uma inata inclinação a explicar detalhadamente tudo, principalmente, as coisas que sinto, como se sentisse necessidade de apalpar o invisível, o silêncio, o abstrato, o subjetivo de mim.

    E se eu pudesse ter tempo de deixar tudo anotado, tudo do jeito que quero, como um testamento. Sim, mas sem heranças (talvez pequenas lembrancinhas inúteis) mas os últimos desejos de alguém que decidiu ir embora desse mundo e o mais importante que partiu em paz e de forma indolor do jeito que esperava. Não sei como, talvez esse dia chegue, eu estou deixando por escrito que amo margaridas e odeio aquelas guirlandas feias de flores mas uma coroa de flores na minha cabeça e um vestido branco como uma noiva meio bailarina que eu nunca imaginei que fosse mesmo acontecer, sapatinhos delicados de boneca, espero que eu deixe meu cabelo colorido, porque o arco-íris é a minha essência do outro meu lado do preto. Eu sempre deixei claro que não quero ficar embaixo apodrecendo na terra, eu não quero ir embora desse jeito, eu quero ser cremada, doar meus órgãos que sirvam, e virar pó de fada se sua imaginação puder sonhar comigo brilhando ao soprar ao vento um dia. Eu não quero ninguém olhando para mim em um caixão pois sou tímida até a morte, então por favor, não faça esse desrespeito a mim, vou deixar uma foto especial para olharem e me verem com meus olhos que apesar da escuridão que os tomava de repente sempre foram sonhadores, inocentes, puros em algum lugar. Eu queria tanto ter vivido uns cem anos ao seu lado. Eu queria tanto ver para que o amor serve. Eu queria tanto saber o que o amor poderia ser. Por enquanto eu não quero morrer, é só uma carta, eu sou o tipo de suicida que desiste de si mesmo em vida, que desiste dos sonhos, e eu também vou desistir do amor se você me deixar, desistir de acreditar sozinha. Eu já deixei de acreditar em tantas coisas, mas a morte continua soberana e o que há depois de lá também. Eu não sei pra onde vou, na morte só há o silêncio, vamos ouvir um pouco mais de música então Eu penso nos meus gatinhos sem mim, no meu quarto cheio de tesouros pequenos da natureza que vão pro lixo talvez, nos livros que são tantos para se ler ainda, na natureza que poderia ser desbravada ainda. Queria que fosse meu companheiro de vida, não queria mais outras pessoas entrando e saindo do meu mundo particular, é tão doloroso que eu só quero desaparecer, pra algum lugar onde ninguém me conheça, eu poderia ir embora agora mesmo do mundo, mas ainda penso nesse lugar, ele não está longe, vou continuar solitária lá? Essa tristeza e vazio de um mundo que te exige esforço e trabalho constante vai me fazer infeliz lá? Não é esse tipo de vida que quero, eu quero um milagre, eu quero um sim. Vida me dá um sim! Antes que eu morra por mim mesma, é tão fácil morrer. Eu só quero um sim. Eu quero uma continuação constante até eu poder embora por conta própria.

    Então eu olho para as plantas e todas as coisas fofas que decoro ao meu redor pra fazer dessa tristeza um chão macio de cair. Essa ainda não é minha carta final, mas quem sabe, ter um lugar lindo pra morrer, é tudo que eu planejo e desejo no meu fim. Enfim, morrer como uma princesa, a bela adormecida. 


   

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024



Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

Depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

Charles Bukowski
(Tradução de Pedro Gonzaga)


(Eu choro, amor, na verdade eu grito. Eu quero que todos saibam que eu voo em seu peito, quero sair e voar sobre você, voar com você, lembra do nosso céu azul. Eu quero cantar mais alto em seu peito sem restrições e limites, eu quero o infinito sentir. Eu não quero ser um pássaro escondido).



quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

 


Eu não sei escrever sobre você,

Tudo se converte internamente 

Como uma súplica, 

um pedido que não é muito silencioso

Meus sentimentos são altos, 

isso eu sempre soube

Eu assusto mas eu grito 

Eu grito porque pra você eu não queria estar invisível 

Eu quero que me veja

Eu quero que me sinta

Eu quero que me deixe entrar e ficar

Eu quero parar o tempo com você 

Eu não tenho vergonha de pedir

Pedir o amor que tanto espero

Como quem pede em uma oração por um milagre

Eu não sei escrever sobre você

Porque você foi feito pra existir além das minhas palavras 

Você foi real, palpável, tátil 

É onde eu quero escrever

Nessa realidade que me é negada

Clarice Lispector também gritava

Intensamente selvagem:

"Eu te invento, realidade".

Eu invento, 

Eu fantasio, 

Eu imagino, 

Eu romantizo, 

Eu poetizo, 

Eu escrevo, 

Eu pinto e bordo, 

Eu crio e recrio,

Eu vagueio

Eu eternizo.

E assim eu não sei escrever sobre você 

sem te dar todo infinito de minhas mãos 

que tanto acariciaram suas costas cansadas.

Eu não sei escrever sobre você, 

eu quero me escrever em você, 

viver em você escrevendo, 

eu não desisti da palavra: 

você. 



terça-feira, 21 de novembro de 2023



  Ilustração by Heo Ji-seon.