- Miss Nobody
- Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.
Popular Posts
-
Água límpida da nascente da alma Eu preciso da água que nasce de mim Não tenho como prever quando essa temporada de seca, mudez e frio vai...
-
Dizem que somos poeira das estrelas, somos formados da mesma composição do universo. Somos universos particulares, cheios de constel...
-
Sei que estou desmoronando mais uma vez é interno o corpo envia sinais o tempo todo é lento sinto a vertigem de quem está a beira do preci...
-
Meu coração tem trinta anos mas as vezes parece que ainda não nasceu as vezes parece que já viveu tempo demais eternidades e efemeridades ...
-
Me deram um coração plantinha silvestre Rasteira Quase invisível Alguns olhares despreparados olham e dizem: "isso aqui é só mato...
-
Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas d...
-
Julho de 1880. Meu caro Théo, É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos. At...
-
Há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou duro demais com ele, eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja. Há um páss...
-
Será que um dia alguém olhou outras rosas e se lembrou de mim sem flor e me desejou assim mesmo? Ainda não sou flor e nasci para ser...
-
os olhos dela são de vidro e eu posso sentir a leve melodia de águas tranquilas quando por um instante meus olhos encontram os dela...
Blogger news
Amargura no dia
amargura nas horas,
amargura no céu
depois da chuva,
amargura nas tuas mãos
amargura em todos os teus gestos.
Só não existe amargura
onde não existe o ser.
Estão sendo atropelados
em seus caminhos,
os que nada mais têm a encontrar.
Os que sentiram amargura de fel
escorrendo da boca,
os que tiveram os lábios
macerados de amor.
Estão terrivelmente sozinhos
os doidos, os tristes, os poetas.
Só não morro de amargura
porque nem mais morrer eu sei.
Hilda Hilst.
Há um rio desaguando do meu peito sem parar
Eu sempre transbordo profundidades incompreendidas
Preciso deixar a enchente invadir tudo de mim
Sentir a violência da ruptura em cada gota
Mas ainda assim não me sinto molhada e lavada
Enquanto as águas me levam eu estou queimando de dentro pra fora
Há tanta água saindo de mim mas não apaga o fogo
Enquanto derramo fico pensando como esse frio queima tanto
Mistura de elementos e náusea
O peito quer estourar as reservas acumuladas
Ao mesmo tempo que a água sai
O buraco no meio do rio me leva pro fundo
Estou afogando e nunca aprendi a nadar
Eu desapareço morrendo nas águas do meu próprio coração
De onde nunca mais vou retornar a superfície
Você vai me encontrar aqui?
Adormecida debaixo das águas.
Quando eu crescer, o suficiente para ir sozinha para onde quiser, gostaria de ir para um país distante.
Gostaria de ir para uma ilha distante. Gostaria de ir para uma ilha onde não houvesse ninguém. Gostaria de ir para uma ilha sem tristeza ou sofrimento.
Uma ilha sem adultos, sem crianças, sem colegas de classe, sem professores, sem mãe.
Nessa ilha, eu subiria em árvores quando quisesse, nadaria no oceano quando quisesse e dormiria quando quisesse.
E nessa ilha, pensaria na cidade onde apenas eu não existo. As crianças iriam para a escola como sempre, os adultos iriam para o trabalho como sempre, e minha mãe faria as refeições como sempre.
Quando penso na cidade onde apenas eu não existo, sinto-me aliviada. Eu queria ir para muito, muito longe.
Hinazuki Kayo
A poesia sempre foi minha primeira casa, quando a imaginação encontra os mistérios dos sentimentos e das sensações com todas as suas sinuosidades e ondulações mágicas chamando o coração a desenhar pelas palavras e sentir o gosto das coisas invisíveis.
Faz um tempo que a poesia sumiu dos meus dias, e do meu coração ela se tornou camuflada entre tantos cansaços e dores, tenho precisado dessa que foi a minha amiga mais antiga, minha mãe e conselheira mais verdadeira quando mais precisei ela estava lá me ensinando a ouvir a mim mesma, a ouvir meu coração e como ele sempre diz sobre as coisas que sente antes que eu as torne em palavras e compreensão do sentir.
Sinto falta de você como me enchia antes, e eu derramava, explodia, transbordava coisas cheias de seu amor pelos detalhes ocultos que habitam secretos esperando nossos olhos. A verdade é que estou soterrada, eu e meu coração, e te escrevo para que possa me encontrar nesses destroços onde já não consigo gritar por socorro, onde já não respiro com facilidade, onde não há uma viva alma que se lembre onde estou.
Sinto sua falta minha querida amiga, abrindo terras em meu coração, criando mundos mágicos e encantados, dando voz ao meu interior, me fazendo falar o que minha boca não consegue dizer. Você se lembra como brincávamos de inventar histórias, de sonhar incansavelmente com elas se realizando mesmo quando tudo era solitário e doloroso ao redor, você me fazia acreditar, me fazia sentir que estou aqui, e que coisas boas ainda podem me encontrar, e que a beleza está mesmo nas coisas invisíveis, silenciosas e minúsculas. Mesmo existindo profundamente entre palavras escritas, você sempre me fez prestar atenção nesse meu mundo interior caçador de tesouros do invisível.
Sei que preciso deixar a sensibilidade sair, mas tem sido tão difícil transformá-la em palavras e dizer o quanto tudo isso dói, saber que muitas vezes que fui sensível demais não me amaram, saber que dizer o que sente é ter coragem de se mostrar vulnerável e fiel a você mesma, ao mesmo tempo a sensibilidade é tão frágil como forte. Tenho repetido ao meu coração todas essas coisas, e eu aprendi muitas outras, tenho tentado ser forte em meio a todas as minhas fraquezas, porque continuar mesmo que parando muitas vezes pelo caminho mostra que eu não desisti ainda, e tem sido tão solitário sem você fazendo seus ecos aqui no meu coração apagado e mudo, sem suas faíscas vez em quando acendendo a minha existência em magia. Quero sentir a sua luz em toda minha escuridão, seu toque me abraçando por dentro como se quisesse ser parte das estrelas.
Eu queria acreditar mais nas coisas como antes, sentir como antes, é um eco em minha cabeça, porque eu sei que o meu coração já não é o mesmo, já aguentamos tanto, é como ter as asas cortadas e olhar a imensidão, quantas coisas fizeram com que a sensibilidade se acuasse amedrontada como um bichinho que só pode se defender encolhendo em si mesmo. Mas eu ainda sinto muito, de uma forma diferente, sinto de uma forma desacreditada, talvez a esperança seja mesmo uma coisa essencial a vida, e o acreditar importante para se continuar vivendo. Mas onde encontro de novo essas coisas dentro de mim, querida amiga, há tantas pedras em cima do meu corpo, aquele mundo encantado que sempre protegi e achei que ninguém poderia tocar e destruir foi aos poucos sendo derrubado, era meu único lugar no mundo, eu que sempre me senti distante, e ainda sinto, como se não fosse de lugar nenhum.
Eu posso te esperar poesia? É como se minha terra não fosse capaz mais de produzir e fazer nada crescer, é um sentimento muito triste e pesado sentir que não vai mais ser feliz nesse mundo embora tente bastante ficar perto de coisas bonitas e continuar tentando aprender e descobrir novas coisas, e uma tristeza ainda maior por sentir que parece ser impossível alguém ser feliz ao seu lado, ou acreditar que você não é capaz de fazer os outros felizes só por ser você, e se sentir verdadeiramente aceita como você é, sem precisar pensar em ser nada, apenas você. Isso sempre doeu não é, sempre. Todo mundo encontra sua felicidade longe de mim mas não comigo, como se precisassem de mim só por um tempo, até que encontram algo melhor e mais feliz, enquanto eu fico daqui de longe a olhar tudo ir embora.
Eu só quero acreditar no que é real, as ilusões já me machucaram muito, por eu acreditar sempre no impossível, no invisível, e querer continuar sonhando, mas estar nesse lugar é sempre solitário no fim, acreditar e esperar sozinho, talvez por isso que não te encontro dentro de mim, eu estou me escondendo de ti, escondendo a minha sensibilidade num mundo para o qual sempre serei invisível.
Então querida poesia, venha me encontrar e não demore muito, eu tenho esperado a vida toda por tudo, mas você sempre pode me encontrar e libertar meu coração. E nós juntas, continuaremos a escrever sobre os segredos do meu coração, e eu existirei nessas palavras tão invisíveis quanto eu mesma, mas que ainda assim são parte da minha alma.
Poesia, quando chegar me dê um abraço na alma, pra eu saber que é você, tenho sentido tanta falta de como só você me abraçava com suas palavras, e envolvia o meu ser de um amor que não existe aqui no plano corpóreo, e eu sinto falta desse amor, você que tantas e tantas vezes me mostrou que eu não estou sozinha, e que existem palavras que abraçam e que colocam pra fora tudo que existe por dentro e que ninguém pode ver. Mas você vê. Minha grande fada do invisível, com suas asas que abraçam a existência dos que esperam sozinhos. Assim, como John Keats, um desses que você me fez conhecer pela doçura de sua alma: Longe, longe, a ti voarei, nas suas asas invisíveis da poesia. Eu quero seu vento transpassando a minha existência, como uma efervescência, que me devolva o gosto na boca, e as palavras borbulhantes, como um beijo a muito esperado.
Eu te amo,
De uma asinha quebrada.
Tentei outra vez.
Um ano em cada dez
Eu dou um jeito —
Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha feito abajur nazista,
Meu pé direito
Peso de papel,
Meu rosto inexpressivo, fino
Linho judeu.
Dispa o pano
Oh, meu inimigo.
Eu te aterrorizo? —
O nariz, as covas dos olhos, a dentadura toda?
O hálito amargo
Desaparece num dia.
Em muito breve a carne
Que a caverna carcomeu vai estar
Em casa, em mim.
E eu uma mulher sempre sorrindo.
Tenho apenas trinta anos.
E como o gato, nove vidas para morrer.
Esta é a Número Três.
Que besteira
Aniquilar-se a cada década.
Um milhão de filamentos.
A multidão, comendo amendoim,
Se aglomera para ver
Desenfaixarem minhas mãos e pés —
O grande striptease.
Senhoras e senhores,
Eis minhas mãos
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,
No entanto sou a mesma, idêntica mulher.
Tinha dez anos na primeira vez.
Foi acidente.
Na segunda quis
Ir até o fim e nunca mais voltar.
Oscilei, fechada
Como uma concha do mar.
Tiveram que chamar e chamar
E tirar os vermes de mim como pérolas grudentas.
Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.
Desse jeito faço parecer infernal.
Desse jeito faço parecer real.
Vão dizer que tenho vocação.
É muito fácil fazer isso numa cela.
É muito fácil fazer isso e ficar nela.
É o teatral
Regresso em plena luz do sol
Ao mesmo local, ao mesmo rosto, ao mesmo grito
Aflito e brutal:
“Milagre!”
Que me deixa mal.
Há um preço
Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração —
Ele bate, afinal.
E há um preço, um preço muito alto
Para cada palavra ou cada toque
Ou mancha de sangue
Ou um pedaço de meu cabelo ou de minhas roupas.
E aí, Herr Doktor.
E aí, Herr Inimigo.
Sou sua obra-prima,
Sou seu tesouro,
O bebê de ouro puro
Que se funde num grito.
Me viro e carbonizo.
Não pense que subestimo sua grande preocupação.
Cinza, cinza —
Você fuça e atiça.
Carne, osso, não há mais nada ali —
Barra de sabão,
Anel de casamento,
Obturação de ouro.
Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado.
Cuidado.
Saída das cinzas
Me levanto com meu cabelo ruivo
E devoro homens como ar.
Sylvia Plath
(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça)
Então desejei voltar ser a transparência das águas nascentes
onde os pés descansam na clareza fresca
poder ser bebida pura
a beleza do invisível que me habita
e esses mesmos pés massageados
pela calma corrente que me passa
me atravessando das mesmas partículas de invisível que me componho
meus esconderijos como tudo que se põe ao sol
Ser visível tem um preço nesse mundo
Alguém um dia escreveu
"de que vale ganhar o mundo se perder a alma"
As vezes querer ser muito visível
me deixa vulnerável as minhas faltas solitárias
As faltas começam a assumir formas desconhecidas
Ser invisível não dói tanto quanto descobrir ser excluída quando visível
Apareço na mesma medida em que sinto vontade de sumir
Então eu quis ser desejada daqui de dentro dessa profundeza
O desejo distorce
Turva as minhas águas tão minhas
Então me recolho em paz nas sombras
Onde o não saber conforta
Não precisar mais aparecer em lugar algum
Completa entregue a minha escuridão iluminada
Eu tento te atrair de longe nos espelhos dessa água onde vivo
Seu mundo e o meu
Espero te ver no reflexo dessa superfície
quando as vezes se aproxima sem me ver
Esperar nos deixa frágeis e débeis
E eu sou naturalmente exposta de esperas
Profundezas ainda a deriva
Então desejei deslisar como essa água e areia
escoando
escorregadia
dispersa
onde eu possa me derramar
fina, leve e infinita
Cinzas desse corpo
sopradas ao longe
Enfim ela foi queimada até o pó
desse coração que me queima viva
como a bruxa e sua fogueira
sem nunca se ver desfazer por completo
Brasas vivas ardem daqui do fundo desse oceano
Mas eu contraditória como sempre fui
Meto água no meu próprio fogo
A água que me possui
Fria
Deixo-a entrar secando as feridas do fogo
Escorrer todas as faíscas num abraço aquático
quando o fogo que pareceu me afogar
essa água que me elevou a superfície
Dois elementos de um mesmo ser
Ariel em sua solidão aquática
Que por amor desejou ter pernas humanas
para ir além das águas e andar em terra firme
Pelo mesmo motivo de ser vista.
Faz um tempo que você aprendeu andar, já sabe atravessar a rua sozinha, é grande o bastante mas ainda se sente uma garotinha olhando o outro lado da rua indecisa de qual a melhor hora pra ir até lá. Você está sozinha, ninguém segura sua mão pra atravessar mais a rua, você tem medo e está assustada, há muita gente no mundo, há muito barulho, muito movimento, muitos lugares ocupados e você se sente fora do espaço e do tempo, perdida você olha as pessoas trafegando livremente, apressadas, desinteressadas, mal se olham quem dirá seguram as mãos umas das outras. É que as vezes faz falta alguém segurar sua mão pra atravessar junto, olhar junto, sonhar junto, mesma direção e outros clichês, ver o futuro e mesmo que não o veja precisamente e de imediato, acreditar. Faz falta acreditar. Bem que alguém disse, amar é mais solitário do que parece, acreditar no amor também. Você não quer mais acreditar sozinha, paralisada olhando o outro lado, você sabe o que é olhar e só ver as costas de alguém indo pra longe, se afastando, você se sente invisível e não pode fazer nada, só olhar as pessoas irem enquanto você fica lá atrás, você ainda ficou mesmo quando tudo foi embora, você ficou por último olhando passarem, você é de outro tempo, as coisas demoram no seu coração, sempre foi difícil se despedir ou acompanhar as pessoas e seus ritmos, então você fica mais um pouco, acredita mais um pouco, espera mais um pouco, se dá mais um pouco. Sozinha, sempre sozinha. Você imagina uma presença que não sabe se está mais ali e dói, você sente falta desse ao lado no meio da multidão, ao lado e não distante, dentro de você uma mão se estende pra tocar o nada, ninguém vê ninguém escuta o esforço, parece tudo inalcançável. Você espera uma mão, é triste. Você espera olhar em frente e ver o caminho sendo possível. Você sente a dor que é não se enxergar no futuro, ter dificuldade de se ver em tudo, talvez por essa distância tão sentida dentro de você, inevitável mas ainda assim você imagina mesmo sem esperança imagina, e você até atravessa a rua como se não estivesse sozinha e sem saber pra onde ir. Esses dias você ouviu algo interessante sobre quando aprendemos a andar pela primeira vez quando crianças, caímos, choramos e não paramos e nos fixamos em pensar só na queda, ali naquele instante não existe pensamentos negativos, você continua, instintivamente persevera em dar os primeiros passos desajeitados, vai de qualquer jeito, imperfeito, cambaleando naquele chão que te sustenta apesar do desequilíbrio e do medo, "do chão não passa" é o que dizem, e os passos vão ficando mais firmes à medida que tenta, você se levanta e alguém te chama pra andar de novo e você vai, as vezes você recebe um abraço no final, você corre pra um abraço, tem alguém te esperando lá no final, do outro lado te chamando, te apoiando, te incentivando, continua continua, você vê alguns sorrisos e encorajamentos, você vai sentir falta disso depois de crescer depois de ter caído tanto e não ter visto nada no final. Você quer ir ao encontro de algo, um abraço talvez, você sabe o que quer, você não quer pensar tanto, quer sentir mais, ser fora um pouco. É estranho pensar no tanto de aprendizado que o corpo adquiriu até aqui quase que automático sem precisar pensar sobre o que fazer, está guardado mesmo quando você se sente um fracasso, você sabe que já conseguiu tanto, estar de pé, se levantar e se equilibrar por si só já é um desafio, você sabe disso. Mas você vai estar lá no final de tudo quando eu precisar lembrar qual a linha de chegada que verdadeiramente importa? Você vai estar lá me esperando na mesma linha de chegada quando eu demorar? Você vai estar lá quando eu cair e precisar de um tempo pra levantar e correr de novo? E se afinal eu não ser boa em correr no tempo certo? Você ainda vai estar lá mesmo quando eu não souber mais acertar os passos, mesmo quando o corpo falhar e se esquecer como anda. Você ainda vai estar lá?