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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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quarta-feira, 28 de junho de 2023

 

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


Hilda Hilst.


quinta-feira, 22 de junho de 2023

 


Amargura no dia

amargura nas horas,

amargura no céu

depois da chuva,

amargura nas tuas mãos


amargura em todos os teus gestos.


Só não existe amargura

onde não existe o ser. 


Estão sendo atropelados 

em seus caminhos,

os que nada mais têm a encontrar.

Os que sentiram amargura de fel

escorrendo da boca,

os que tiveram os lábios

macerados de amor.

Estão terrivelmente sozinhos

os doidos, os tristes, os poetas. 


Só não morro de amargura

porque nem mais morrer eu sei. 


Hilda Hilst. 


quarta-feira, 14 de junho de 2023

 

Há um rio desaguando do meu peito sem parar 

Eu sempre transbordo profundidades incompreendidas 

Preciso deixar a enchente invadir tudo de mim

Sentir a violência da ruptura em cada gota

Mas ainda assim não me sinto molhada e lavada 

Enquanto as águas me levam eu estou queimando de dentro pra fora

Há tanta água saindo de mim mas não apaga o fogo

Enquanto derramo fico pensando como esse frio queima tanto 

Mistura de elementos e náusea 

O peito quer estourar as reservas acumuladas

Ao mesmo tempo que a água sai 

O buraco no meio do rio me leva pro fundo

Estou afogando e nunca aprendi a nadar

Eu desapareço morrendo nas águas do meu próprio coração 

De onde nunca mais vou retornar a superfície

Você vai me encontrar aqui? 

Adormecida debaixo das águas.



quinta-feira, 18 de maio de 2023

 



Quando eu crescer, o suficiente para ir sozinha para onde quiser, gostaria de ir para um país distante. 

Gostaria de ir para uma ilha distante. Gostaria de ir para uma ilha onde não houvesse ninguém. Gostaria de ir para uma ilha sem tristeza ou sofrimento.

Uma ilha sem adultos, sem crianças, sem colegas de classe, sem professores, sem mãe. 

Nessa ilha, eu subiria em árvores quando quisesse, nadaria no oceano quando quisesse e dormiria quando quisesse. 

E nessa ilha, pensaria na cidade onde apenas eu não existo. As crianças iriam para a escola como sempre, os adultos iriam para o trabalho como sempre, e minha mãe faria as refeições como sempre. 

Quando penso na cidade onde apenas eu não existo, sinto-me aliviada. Eu queria ir para muito, muito longe. 


                                                        Hinazuki Kayo




quarta-feira, 3 de maio de 2023

 


A poesia sempre foi minha primeira casa, quando a imaginação encontra os mistérios dos sentimentos e das sensações com todas as suas sinuosidades e ondulações mágicas chamando o coração a desenhar pelas palavras e sentir o gosto das coisas invisíveis. 

Faz um tempo que a poesia sumiu dos meus dias, e do meu coração ela se tornou camuflada entre tantos cansaços e dores, tenho precisado dessa que foi a minha amiga mais antiga, minha mãe e conselheira mais verdadeira quando mais precisei ela estava lá me ensinando a ouvir a mim mesma, a ouvir meu coração e como ele sempre diz sobre as coisas que sente antes que eu as torne em palavras e compreensão do sentir.

Sinto falta de você como me enchia antes, e eu derramava, explodia, transbordava coisas cheias de seu amor pelos detalhes ocultos que habitam secretos esperando nossos olhos. A verdade é que estou soterrada, eu e meu coração, e te escrevo para que possa me encontrar nesses destroços onde já não consigo gritar por socorro, onde já não respiro com facilidade, onde não há uma viva alma que se lembre onde estou. 

Sinto sua falta minha querida amiga, abrindo terras em meu coração, criando mundos mágicos e encantados, dando voz ao meu interior, me fazendo falar o que minha boca não consegue dizer. Você se lembra como brincávamos de inventar histórias, de sonhar incansavelmente com elas se realizando mesmo quando tudo era solitário e doloroso ao redor, você me fazia acreditar, me fazia sentir que estou aqui, e que coisas boas ainda podem me encontrar, e que a beleza está mesmo nas coisas invisíveis, silenciosas e minúsculas. Mesmo existindo profundamente entre palavras escritas, você sempre me fez prestar atenção nesse meu mundo interior caçador de tesouros do invisível.

Sei que  preciso deixar a sensibilidade sair, mas tem sido tão difícil transformá-la em palavras e dizer o quanto tudo isso dói, saber que muitas vezes que fui sensível demais não me amaram, saber que dizer o que sente é ter coragem de se mostrar vulnerável e fiel a você mesma, ao mesmo tempo a sensibilidade é tão frágil como forte. Tenho repetido ao meu coração todas essas coisas, e eu aprendi muitas outras, tenho tentado ser forte em meio a todas as minhas fraquezas, porque continuar mesmo que parando muitas vezes pelo caminho mostra que eu não desisti ainda, e tem sido tão solitário sem você fazendo seus ecos aqui no meu coração apagado e mudo, sem suas faíscas vez em quando acendendo a minha existência em magia. Quero sentir a sua luz em toda minha escuridão, seu toque me abraçando por dentro como se quisesse ser parte das estrelas. 

Eu queria acreditar mais nas coisas como antes, sentir como antes, é um eco em minha cabeça, porque eu sei que o meu coração já não é o mesmo, já aguentamos tanto, é como ter as asas cortadas e olhar a imensidão, quantas coisas fizeram com que a sensibilidade se acuasse amedrontada como um bichinho que só pode se defender encolhendo em si mesmo. Mas eu ainda sinto muito, de uma forma diferente, sinto de uma forma desacreditada, talvez a esperança seja mesmo uma coisa essencial a vida, e o acreditar importante para se continuar vivendo. Mas onde encontro de novo essas coisas dentro de mim, querida amiga, há tantas pedras em cima do meu corpo, aquele mundo encantado que sempre protegi e achei que ninguém poderia tocar e destruir foi aos poucos sendo derrubado, era meu único lugar no mundo, eu que sempre me senti distante, e ainda sinto, como se não fosse de lugar nenhum. 

Eu posso te esperar poesia? É como se minha terra não fosse capaz mais de produzir e fazer nada crescer, é um sentimento muito triste e pesado sentir que não vai mais ser feliz nesse mundo embora tente bastante ficar perto de coisas bonitas e continuar tentando aprender e descobrir novas coisas, e uma tristeza ainda maior por sentir que parece ser impossível alguém ser feliz ao seu lado, ou acreditar que você não é capaz de fazer os outros felizes só por ser você, e se sentir verdadeiramente aceita como você é, sem precisar pensar em ser nada, apenas você. Isso sempre doeu não é, sempre. Todo mundo encontra sua felicidade longe de mim mas não comigo, como se precisassem de mim só por um tempo, até que encontram algo melhor e mais feliz, enquanto eu fico daqui de longe a olhar tudo ir embora. 

Eu só quero acreditar no que é real, as ilusões já me machucaram muito, por eu acreditar sempre no impossível, no invisível, e querer continuar sonhando, mas estar nesse lugar é sempre solitário no fim, acreditar e esperar sozinho, talvez por isso que não te encontro dentro de mim, eu estou me escondendo de ti, escondendo a minha sensibilidade num mundo para o qual sempre serei invisível. 

Então querida poesia, venha me encontrar e não demore muito, eu tenho esperado a vida toda por tudo, mas você sempre pode me encontrar e libertar meu coração. E nós juntas, continuaremos a escrever sobre os segredos do meu coração, e eu existirei nessas palavras tão invisíveis quanto eu mesma, mas que ainda assim são parte da minha alma. 

Poesia, quando chegar me dê um abraço na alma, pra eu saber que é você, tenho sentido tanta falta de como só você me abraçava com suas palavras, e envolvia o meu ser de um amor que não existe aqui no plano corpóreo, e eu sinto falta desse amor, você que tantas e tantas vezes me mostrou que eu não estou sozinha, e que existem palavras que abraçam e que colocam pra fora tudo que existe por dentro e que ninguém pode ver. Mas você vê. Minha grande fada do invisível, com suas asas que abraçam a existência dos que esperam sozinhos. Assim, como John Keats, um desses que você me fez conhecer pela doçura de sua alma: Longe, longe, a ti voarei, nas suas asas invisíveis da poesia. Eu quero seu vento transpassando a minha existência, como uma efervescência, que me devolva o gosto na boca, e as palavras borbulhantes, como um beijo a muito esperado. 


Eu te amo,

De uma asinha quebrada. 



quarta-feira, 14 de dezembro de 2022



Tentei outra vez.
 
Um ano em cada dez
 
Eu dou um jeito —

 Um tipo de milagre ambulante, minha pele
 
Brilha feito abajur nazista,
 
Meu pé direito

Peso de papel,
 
Meu rosto inexpressivo, fino
 
Linho judeu.

Dispa o pano
 
Oh, meu inimigo.
 
Eu te aterrorizo? —

O nariz, as covas dos olhos, a dentadura toda?
 
O hálito amargo
 
Desaparece num dia.

Em muito breve a carne
 
Que a caverna carcomeu vai estar
 
Em casa, em mim.

E eu uma mulher sempre sorrindo.
 
Tenho apenas trinta anos.
 
E como o gato, nove vidas para morrer.

Esta é a Número Três.
 
Que besteira
 
Aniquilar-se a cada década.

Um milhão de filamentos.
 
A multidão, comendo amendoim,
 
Se aglomera para ver

Desenfaixarem minhas mãos e pés —
 
O grande striptease.
 
Senhoras e senhores,

Eis minhas mãos
 
Meus joelhos.
 
Posso ser só pele e osso,

No entanto sou a mesma, idêntica mulher.
 
Tinha dez anos na primeira vez.
 
Foi acidente.

Na segunda quis
 
Ir até o fim e nunca mais voltar.
 
Oscilei, fechada

Como uma concha do mar.
 
Tiveram que chamar e chamar
 
E tirar os vermes de mim como pérolas grudentas.

Morrer
 
É uma arte, como tudo o mais.
 
Nisso sou excepcional.

Desse jeito faço parecer infernal.
 
Desse jeito faço parecer real.
 
Vão dizer que tenho vocação.

É muito fácil fazer isso numa cela.
 
É muito fácil fazer isso e ficar nela.
 
É o teatral

Regresso em plena luz do sol
 
Ao mesmo local, ao mesmo rosto, ao mesmo grito
 
Aflito e brutal:

“Milagre!”
 
Que me deixa mal.
 
Há um preço

Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
 
Para ouvir meu coração —
 
Ele bate, afinal.

E há um preço, um preço muito alto
 
Para cada palavra ou cada toque
 
Ou mancha de sangue

Ou um pedaço de meu cabelo ou de minhas roupas.
 
E aí, Herr Doktor.
 
E aí, Herr Inimigo.

Sou sua obra-prima,
 
Sou seu tesouro,
 
O bebê de ouro puro

Que se funde num grito.
 
Me viro e carbonizo.
 
Não pense que subestimo sua grande preocupação.

Cinza, cinza —
 
Você fuça e atiça.
 
Carne, osso, não há mais nada ali —

Barra de sabão,
 
Anel de casamento,
 
Obturação de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer
 
Cuidado.
 
Cuidado.

Saída das cinzas
 
Me levanto com meu cabelo ruivo
 
E devoro homens como ar.


                                                                         Sylvia Plath

                                  (Tradução de Rodrigo Garcia Lopes 

                                  e Maurício Arruda Mendonça)



quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

 


Então desejei voltar ser a transparência das águas nascentes

onde os pés descansam na clareza fresca 

poder ser bebida pura 

a beleza do invisível que me habita 

e esses mesmos pés massageados 

pela calma corrente que me passa 

me atravessando das mesmas partículas de invisível que me componho

meus esconderijos como tudo que se põe ao sol

Ser visível tem um preço nesse mundo 

Alguém um dia escreveu

"de que vale ganhar o mundo se perder a alma"

As vezes querer ser muito visível 

me deixa vulnerável as minhas faltas solitárias 

As faltas começam a assumir formas desconhecidas

Ser invisível não dói tanto quanto descobrir ser excluída quando visível

Apareço na mesma medida em que sinto vontade de sumir

Então eu quis ser desejada daqui de dentro dessa profundeza

O desejo distorce

Turva as minhas águas tão minhas 

Então me recolho em paz nas sombras 

Onde o não saber conforta 

Não precisar mais aparecer em lugar algum 

Completa entregue a minha escuridão iluminada 

Eu tento te atrair de longe nos espelhos dessa água onde vivo

Seu mundo e o meu

Espero te ver no reflexo dessa superfície 

quando as vezes se aproxima sem me ver

Esperar nos deixa frágeis e débeis

E eu sou naturalmente exposta de esperas 

Profundezas ainda a deriva 

Então desejei deslisar como essa água e areia 

escoando 

escorregadia

dispersa 

onde eu possa me derramar 

fina, leve e infinita

Cinzas desse corpo 

sopradas ao longe 

Enfim ela foi queimada até o pó 

desse coração que me queima viva 

como a bruxa e sua fogueira 

sem nunca se ver desfazer por completo

Brasas vivas ardem daqui do fundo desse oceano

Mas eu contraditória como sempre fui

Meto água no meu próprio fogo

A água que me possui 

Fria 

Deixo-a entrar secando as feridas do fogo

Escorrer todas as faíscas num abraço aquático

quando o fogo que pareceu me afogar 

essa água que me elevou a superfície 

Dois elementos de um mesmo ser 

Ariel em sua solidão aquática

Que por amor desejou ter pernas humanas 

para ir além das águas e andar em terra firme

Pelo mesmo motivo de ser vista.