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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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quarta-feira, 20 de setembro de 2023

 


- O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.

- O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 

- Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia. 

- O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.

- Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.

- O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.

- O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski. 

- Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar-refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

- Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

- O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu. 

- Aviso: não confundir bobos com burros.

- Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: "Até tu, Brutus?" 

- Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 

- Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

- Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 

- O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

- Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.

- Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.

- Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 

- Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 

- Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

- É quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

 

Clarice Lispector,

♡.

 


sexta-feira, 25 de agosto de 2023

 

From childhood’s hour I have not been

As others were—I have not seen

As others saw—I could not bring

My passions from a common spring —

From the same source I have not taken

My sorrow—I could not awaken

My heart to joy at the same tone —

And all I lov’d—I lov’d alone —

Then—in my childhood—in the dawn

Of a most stormy life—was drawn

From ev’ry depth of good and ill

The mystery which binds me still —

From the torrent, or the fountain —

From the red cliff of the mountain —

From the sun that ’round me roll’d

In its autumn tint of gold —

From the lightning in the sky

As it pass’d me flying by —

From the thunder, and the storm —

And the cloud that took the form

(When the rest of Heaven was blue)

Of a demon in my view —

 

Edgar Allan Poe. 


Tradução:

(Leonardo de Magalhaens)


Desde a infância eu tenho sido
Diferente d'outros – tenho visto
D'outro modo – minhas paixões
Tinham uma outra fonte e
Minhas mágoas outra origem -
No mesmo tom não despertava
O meu coração para a alegria -
O que amei – eu amei só.
Então – na infância – a aurora
Da vida atormentada – estava
Em cada nicho de bem e mal
O mistério que me prendia -
Da correnteza, da fonte -
Da escarpas rubras do monte -
Do sol que me rodeava
Em pleno outono dourado -
Do relâmpago nos céus
Quando sobre mim passava -
Do trovão, da tormenta -
E a nuvem tem a forma
(Quando o resto do céu é azul)
D'um demônio aos meus olhos.

 

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

 


Morrer por ti era pouco

Qualquer grego o fizera. 

Viver é mais difícil -

É esta a minha oferta -


Morrer é nada, nem

Mais. Porém viver importa

Morte múltipla - sem

O alívio de estar morta. 


Emily Dickinson.

(Tradução de Augusto de Campos). 



 

A free bird leaps

on the back of the wind

and floats downstream

till the current ends

and dips his wing

in the orange sun rays

and dares to claim the sky.

 

But a bird that stalks

down his narrow cage

can seldom see through

his bars of rage

his wings are clipped and

his feet are tied

so he opens his throat to sing.

 

The caged bird sings

with a fearful trill

of things unknown

but longed for still

and his tune is heard

on the distant hill

for the caged bird

sings of freedom.

 

The free bird thinks of another breeze

and the trade winds soft through the sighing trees

and the fat worms waiting on a dawn bright lawn

and he names the sky his own

 

But a caged bird stands on the grave of dreams

his shadow shouts on a nightmare scream

his wings are clipped and his feet are tied

so he opens his throat to sing.

 

The caged bird sings

with a fearful trill

of things unknown

but longed for still

and his tune is heard

on the distant hill

for the caged bird

sings of freedom.


Tradução: 


O pássaro livre se lança

nas costas do vento

e flutua rio abaixo

até onde a corrente termina

e banha as suas asas

nos raios alaranjados do sol

e ousa revindicar o céu.

 

Mas um pássaro que desce

a sua gaiola apertada

raramente pode ver atráves

das suas barras de raiva

suas asas estão cortadas e

seus pés amarrados

então ele abre o seu gargalo para cantar.

 

O pássaro engaiolado canta

com trinado amedrontado

sobre as coisas desconhecidas

mas ansiava pela calma

e a sua cantiga é ouvida

no morro distante

pois o pássaro engaiolado

canta de liberdade.

 

O pássaro livre pensa sobre outra brisa

e os ventos alísios suave através das árvores suspirantes

e as minhocas rechonchudas aguardando num gramado clareado pelo o amanhecer

e ele nomeia o céu de seu próprio

(ele nomeia o céu como seu)

 

Mas o pássaro engaiolado está em cima do túmulo dos sonhos

a sua sombra exclama num grito de pesadelo

suas asas estão cortadas e seus pés amarrados

então ele abre o seu gargalo para cantar

 

O pássaro engaiolado canta

com trinado amedrontado

sobre as coisas desconhecidas

mas ansiava pela calma

e a sua cantiga é ouvida

no morro distante

pois o pássaro engaiolado

canta de liberdade.


I Know why the caged bird sings,

Maya Angelou.


(Estou editando aos poucos a carta do Van Gogh sobre o pássaro na gaiola pra trazer pra cá enquanto isso conheci esse poema ontem e me tocou profundamente e preciso dizer que quero muito conhecer os livros dessa mulher guerreira, forte, negra e que cantava pelo seu povo e pela liberdade, obrigada Maya por ter cantado nesse mundo o que os passarinhos feridos sabem ouvir nas colinas mais distantes). 


domingo, 23 de julho de 2023

 


If I can stop one heart from breaking,
I shall not live in vain;
If I can ease one life the aching,
Or cool one pain,
Or help one fainting robin
Unto his nest again,
I shall not live in vain.

Emily Dickinson.


Se eu puder evitar que um Coração padeça
Não viverei em vão.
Se eu fizer que na Vida alguém esqueça
A Dor ou a Aflição

Ou se ajudar um Pássaro caído
A retornar ao Ninho
Não viverei em vão.

Emily Dickinson


Tradução: José Lira.


Não viverei em vão, se puder
Salvar de partir-se um coração,
Se eu puder aliviar uma vida
Sofrida, ou abrandar uma dor,
Ou ajudar exangue passarinho
A subir de novo ao ninho —
Não viverei em vão.

Emily Dickinson


Tradução: Aíla de Oliveira Gomes.



quinta-feira, 20 de julho de 2023

 

Estou embrulhando um solstício para ti, sim, solstício polpudo, plangente, vibrante e todo enfeitado em papel de sonho. Amarrei até um laço, pendurei crucifixos, borrifei essência e na concha de meu seio vívido há uma turma de passarinhos serelepes que vão junto na caixa; se és presente que queres, então abra este pedaço de carne e veja o que achas. Ouvi dizer que tens andado com um tédio buliçoso, que a preguiça de se reinventar pousou primeiro no teu rosto e depois na tua horta de cebolinhas. Tem certeza que este vazio não serve de linha para costura? Sei que sofre de lonjuras, que tudo arranha e nada elucida, mas não se afobe… sabes que vai chegar lá, não é? A propósito, mandei uma muda de amplidão, tecido de vida e iluminura, talvez lhe sirvam. Neste inverno é bom agasalhar solidão.


Bru,

De brumas 🍃☁️.


(Lindo poema-carta escrito pela minha amiga Bruna, que me compartilhou em um momento de angústia e solidão, me trazendo ternura e lembranças das coisas doces, como a magia de um cobertor macio e quentinho que nos aquece e por um tempo nos esconde dos perigos lá fora e da dura realidade. Muitas vezes a vontade de viver falha, e admiro tanto mulheres como você que ainda se permitem ser sonhadoras e sensíveis num mundo e tempos tão difíceis como Amélie sabia. Esses dias minha psicóloga disse que sou subjetiva e que ela entende como algumas coisas desse mundo são difíceis para eu por em palavras normais e que alguns possam acompanhar, e disse que almas como a nossa são raras nesse mundo que além de sentir muito transformam os sentimentos em poesia, traduzem a alma, o secreto, o oculto, o invisível, que muitos escondem por não querer sentir. Obrigada amiga por tentar entender meus silêncios e meu tempo com esse meu jeito de me calar muitas vezes. Com certeza todas pessoas que me dedicam um poema, um livro, uma carta, uma imagem, um filme ou desenho, uma música ou um disco inteiro, uma playlist ou que me escreve a mão nem que seja um bilhetinho simples, tem um lugar especial no meu coração e para mim um significado como o mais delicado presente pra alma, palavras também importam, e pra mim como uma pessoa que existo através delas, que vivêncio elas, tudo é relevante). 


"Isso se chama encarar a realidade, mas é isso que Amélie não quer..."


domingo, 16 de julho de 2023

 

Bernardo é quase uma árvore
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
Incompletude?
)


Manoel de Barros.


(Ser o Bernardo, se sentir tão íntimo em seu silêncio, que as coisas chegam até ele em seu estado de simplicidade com que ele corresponde aos seres e a vida,  o respeito ao todo em que se faz parte. Um dia um professor de filosofia perguntou na sala de aula, se você pudesse escolher ter nascido outro ser vivo, o que você gostaria de ser? Houveram diversas repostas dentro do reino animal mas somente eu habitei o reino das plantas, eu disse então, "eu queria ser uma árvore", o professor ficou surpreso, talvez porque geralmente as pessoas usam as plantas de forma pejorativa nos últimos tempos pra identificar alguém que não faz nada ou é quieto demais em seu canto, de certo são tolos, não menos que um olhar despreparado como aqueles que olham um lugar verde e coberto pelo selvagem e só conseguem chamar de mato, ver só mato, daí a palavra triste, desmatamento. E eu escrevi o porque de eu querer ser árvore, tão somente pelo fato de me identificar com elas, onde o falar e fazer assume outras formas ocultas mas não menos expressivas. Ser árvore pode parecer solitário, já que meu espírito é desse tom arbóreo, mas árvores são sinônimos de abrigo, são receptoras das criaturas, servem aos seres que muitas vezes estão de passagem cansados e famintos, pertence às esperas sazonais, são sombras, tornam o ar mais fresco e puro, ensinam sobre o silêncio de continuar crescendo a partir de um mesmo lugar, sobre acima de tudo a resistência. Tenho maior respeito por esses seres tão ancestrais e sábios da terra, queria um dia abraçar um pinheiro, ou quem sabe estar perto de uma sequoia gigante, das árvores mais antigas do planeta, para me sentir pequena e insignificante da forma mais poética e humilde possível através de seres que paradas em seus lugares onde fincaram suas raízes suportaram as tempestades, as ventanias, o fogo, as mudanças climáticas e aprenderam renascer de si mesmas e a se defender de onde estão, entre inverno e primavera. Deve ser bom se saber enraizada em seu lugar de ser o que você nasceu pra ser, ou mesmo se enraizar em outro ser que lhe permita crescer como árvore inteira).