- Miss Nobody
- Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.
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Blogger news
- O
bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no
mundo.
- O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado
por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou
pensando."
-
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de
sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem
a ideia.
- O
bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.
- Os
espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem
diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.
- O
bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.
- O
bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um
Dostoiévski.
- Há
desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para a compra de um ar-refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é
fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não
funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava
tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
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Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e
portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado.
- O
esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.
-
Aviso: não confundir bobos com burros.
-
Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das
tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre:
"Até tu, Brutus?"
-
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
- Os
bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
- Se
Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
- O
bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
-
Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os
espertos não conseguem passar por bobos.
- Os
espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.
-
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se
importam que saibam que eles sabem.
- Há
lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com
burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo.
Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
-
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
- É
quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é
capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
Clarice
Lispector,
♡.
From
childhood’s hour I have not been
As
others were—I have not seen
As
others saw—I could not bring
My
passions from a common spring —
From
the same source I have not taken
My
sorrow—I could not awaken
My
heart to joy at the same tone —
And
all I lov’d—I lov’d alone —
Then—in
my childhood—in the dawn
Of a
most stormy life—was drawn
From
ev’ry depth of good and ill
The
mystery which binds me still —
From
the torrent, or the fountain —
From
the red cliff of the mountain —
From
the sun that ’round me roll’d
In
its autumn tint of gold —
From
the lightning in the sky
As
it pass’d me flying by —
From
the thunder, and the storm —
And
the cloud that took the form
(When
the rest of Heaven was blue)
Of a
demon in my view —
Tradução:
(Leonardo de Magalhaens)
A free bird leaps
on the back of the wind
and floats downstream
till the current ends
and dips his wing
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.
But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.
The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.
The free bird thinks of another breeze
and the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn bright lawn
and he names the sky his own
But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing.
The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.
Tradução:
O pássaro livre se lança
nas costas do vento
e flutua rio abaixo
até onde a corrente termina
e banha as suas asas
nos raios alaranjados do sol
e ousa revindicar o céu.
Mas um pássaro que desce
a sua gaiola apertada
raramente pode ver atráves
das suas barras de raiva
suas asas estão cortadas e
seus pés amarrados
então ele abre o seu gargalo para cantar.
O pássaro engaiolado canta
com trinado amedrontado
sobre as coisas desconhecidas
mas ansiava pela calma
e a sua cantiga é ouvida
no morro distante
pois o pássaro engaiolado
canta de liberdade.
O pássaro livre pensa sobre outra brisa
e os ventos alísios suave através das árvores suspirantes
e as minhocas rechonchudas aguardando num gramado clareado
pelo o amanhecer
e ele nomeia o céu de seu próprio
(ele nomeia o céu como seu)
Mas o pássaro engaiolado está em cima do túmulo dos sonhos
a sua sombra exclama num grito de pesadelo
suas asas estão cortadas e seus pés amarrados
então ele abre o seu gargalo para cantar
O pássaro engaiolado canta
com trinado amedrontado
sobre as coisas desconhecidas
mas ansiava pela calma
e a sua cantiga é ouvida
no morro distante
pois o pássaro engaiolado
canta de liberdade.
I Know why the caged bird sings,
Maya Angelou.
(Estou editando aos poucos a carta do Van Gogh sobre o pássaro na gaiola pra trazer pra cá enquanto isso conheci esse poema ontem e me tocou profundamente e preciso dizer que quero muito conhecer os livros dessa mulher guerreira, forte, negra e que cantava pelo seu povo e pela liberdade, obrigada Maya por ter cantado nesse mundo o que os passarinhos feridos sabem ouvir nas colinas mais distantes).
If I can stop one heart from breaking,
I shall not live in vain;
If I can ease one life the aching,
Or cool one pain,
Or help one fainting robin
Unto his nest again,
I shall not live in vain.
Emily Dickinson.
Se eu puder evitar que um Coração padeça
Não viverei em vão.
Se eu fizer que na Vida alguém esqueça
A Dor ou a Aflição
Ou se ajudar um Pássaro caído
A retornar ao Ninho
Não viverei em vão.
Emily Dickinson
Tradução: José Lira.
Não viverei em vão, se puder
Salvar de partir-se um coração,
Se eu puder aliviar uma vida
Sofrida, ou abrandar uma dor,
Ou ajudar exangue passarinho
A subir de novo ao ninho —
Não viverei em vão.
Emily Dickinson
Tradução: Aíla de Oliveira Gomes.
Estou embrulhando um solstício para ti, sim, solstício
polpudo, plangente, vibrante e todo enfeitado em papel de sonho. Amarrei até um
laço, pendurei crucifixos, borrifei essência e na concha de meu seio vívido há uma
turma de passarinhos serelepes que vão junto na caixa; se és presente que
queres, então abra este pedaço de carne e veja o que achas. Ouvi dizer que tens
andado com um tédio buliçoso, que a preguiça de se reinventar pousou primeiro
no teu rosto e depois na tua horta de cebolinhas. Tem certeza que este vazio
não serve de linha para costura? Sei que sofre de lonjuras, que tudo arranha e
nada elucida, mas não se afobe… sabes que vai chegar lá, não é? A propósito,
mandei uma muda de amplidão, tecido de vida e iluminura, talvez lhe sirvam.
Neste inverno é bom agasalhar solidão.
Bru,
De brumas 🍃☁️.
(Lindo poema-carta escrito pela minha amiga Bruna, que me compartilhou em um momento de angústia e solidão, me trazendo ternura e lembranças das coisas doces, como a magia de um cobertor macio e quentinho que nos aquece e por um tempo nos esconde dos perigos lá fora e da dura realidade. Muitas vezes a vontade de viver falha, e admiro tanto mulheres como você que ainda se permitem ser sonhadoras e sensíveis num mundo e tempos tão difíceis como Amélie sabia. Esses dias minha psicóloga disse que sou subjetiva e que ela entende como algumas coisas desse mundo são difíceis para eu por em palavras normais e que alguns possam acompanhar, e disse que almas como a nossa são raras nesse mundo que além de sentir muito transformam os sentimentos em poesia, traduzem a alma, o secreto, o oculto, o invisível, que muitos escondem por não querer sentir. Obrigada amiga por tentar entender meus silêncios e meu tempo com esse meu jeito de me calar muitas vezes. Com certeza todas pessoas que me dedicam um poema, um livro, uma carta, uma imagem, um filme ou desenho, uma música ou um disco inteiro, uma playlist ou que me escreve a mão nem que seja um bilhetinho simples, tem um lugar especial no meu coração e para mim um significado como o mais delicado presente pra alma, palavras também importam, e pra mim como uma pessoa que existo através delas, que vivêncio elas, tudo é relevante).
"Isso se chama encarar a realidade, mas é isso que
Amélie não quer..."
♡
Bernardo é quase uma árvore
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
Incompletude?)
Manoel de Barros.
(Ser o Bernardo, se sentir tão íntimo em seu silêncio, que as coisas chegam até ele em seu estado de simplicidade com que ele corresponde aos seres e a vida, o respeito ao todo em que se faz parte. Um dia um professor de filosofia perguntou na sala de aula, se você pudesse escolher ter nascido outro ser vivo, o que você gostaria de ser? Houveram diversas repostas dentro do reino animal mas somente eu habitei o reino das plantas, eu disse então, "eu queria ser uma árvore", o professor ficou surpreso, talvez porque geralmente as pessoas usam as plantas de forma pejorativa nos últimos tempos pra identificar alguém que não faz nada ou é quieto demais em seu canto, de certo são tolos, não menos que um olhar despreparado como aqueles que olham um lugar verde e coberto pelo selvagem e só conseguem chamar de mato, ver só mato, daí a palavra triste, desmatamento. E eu escrevi o porque de eu querer ser árvore, tão somente pelo fato de me identificar com elas, onde o falar e fazer assume outras formas ocultas mas não menos expressivas. Ser árvore pode parecer solitário, já que meu espírito é desse tom arbóreo, mas árvores são sinônimos de abrigo, são receptoras das criaturas, servem aos seres que muitas vezes estão de passagem cansados e famintos, pertence às esperas sazonais, são sombras, tornam o ar mais fresco e puro, ensinam sobre o silêncio de continuar crescendo a partir de um mesmo lugar, sobre acima de tudo a resistência. Tenho maior respeito por esses seres tão ancestrais e sábios da terra, queria um dia abraçar um pinheiro, ou quem sabe estar perto de uma sequoia gigante, das árvores mais antigas do planeta, para me sentir pequena e insignificante da forma mais poética e humilde possível através de seres que paradas em seus lugares onde fincaram suas raízes suportaram as tempestades, as ventanias, o fogo, as mudanças climáticas e aprenderam renascer de si mesmas e a se defender de onde estão, entre inverno e primavera. Deve ser bom se saber enraizada em seu lugar de ser o que você nasceu pra ser, ou mesmo se enraizar em outro ser que lhe permita crescer como árvore inteira).