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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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terça-feira, 4 de julho de 2023

 

Love is like the wild rose-briar,

Friendship like the holly-tree -

The holly is dark when the rose-briar blooms,

But which will bloom most constantly?

The wild rose-briar is sweet in spring,

It's summer blossoms scent the air.

Yet wait till winter comes again 

And who will call the wild-briar fair?


Then scorn the silly rose-wreath now

And deck thee with the holly's sheen,

That when December blights thy brow

He still may leave thy garland green.


Tradução:


O amor é como a roseira brava,

A amizade como o azevinho - 

O azevinho está escuro quando a roseira brava floresce, 

Mas qual florescerá mais constantemente?

A roseira brava é doce na Primavera

As suas flores de Verão perfumam o ar.

No entanto, esperem que o Inverno venha de novo 

E quem chamará à roseira brava bela? 


Então rejeita a volúvel grinalda de rosas agora 

E cobre-te com o esplendor do azevinho 

De modo que quando Dezembro atingir a tua fronte 

Ele possa ainda deixar a tua grinalda verde. 


Emily Brontë. 

(Dear Emily, like you, I know I'll always be the dark holly-tree. Was I born to be rose?)


 

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Alberto Caeiro. (Fernando Pessoa).


Comentário:

(Poeta, sente-se aqui comigo na solidão universal da alma, você que já é imortal e não sabia quando dizia a si mesmo desse sentimento que compartilho e sinto sobre ser um alívio não se ter importância alguma para o mundo, ser um alívio muitas vezes não existir, não ser nada, ou ser apenas essa partícula coexistente do todo que se desfaz, mas ainda assim poeta, tu sabes, sentimos tanto o peso do mundo no coração, mesmo sabendo de fato que a realidade tal como a natureza e o universo inteiro não precisa de nós meros humanos, demasiados humanos, pra continuar seus ciclos e fluxos de existência. 
Poeta, queria te confessar, tu que já se tornou uma estrela que passou e ficou na terra para sempre nos corações que enxergam seu brilho. Poeta, eu ainda morreria triste, sabe por que? 
Eu queria ser a própria primavera em si. Sim. Sentir a primavera brotar de meus mundos gelados, viva, não para depois quando não puder ter preferências,  como tu sabias, não há mais nada lá. Brotar, nascer de todo esquecimento, de todo congelamento, por isso é que escrevemos, não é mesmo? Nossa sina, não é. Sementes que muitos artistas morreram e não viram em vida se tornar raízes e árvore, não viram crescer mas se souberam e se aceitaram também no sentir-se insignificante diante de todas as coisas mas ainda assim semearam a alma para florir quem sabe amanhã junto com essa primavera que continuará mesmo sem nós. Florir mesmo quando vier a primavera e já estar morto, é para poucos, raríssimos. Sei que você me entende, talvez ainda apesar de ter morrido tanto ainda não aprendi a morrer). 
Como deixou escrito um dos epitáfios mais lindos que já li e me identifico muito, do meu adorável John Keats que deixou marcado para sua morte: 

"Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito na água". 

Ele não sabia mas essas águas brilham e ecoam seu nome até hoje. Ninguém saberá. 





Ah! como eu amo os galhos das árvores 
emoldurando o céu
anatomia de um quadro vivo ao ar livre
um quadro aberto de brechas
exposto a visitações de liberdade
pra imaginação entrar e se pintar junto
paisagem nunca gasta a si contemplar
raios e veias
ramificações em ínfimas infinitudes 
caminhos vastos de se respirar de si e além 
um quadro que você olha pra respirar por através dele 
molduras que se inspira a vida
pulsantes de ser quase engolido pelo céu
e a cada passagem 
ter nas fendas da sua secura
da sua já formosa rigidez
uma cor misturada ao invisível da imensidão
um sistema pulmonar a desenhar a si próprio em plena amplidão celeste.



Uma pequena nota:

(Este é um poeminha simplório que deixei incompleto em 2017, como tantos outros que existem aqui dentro, cá estou seis anos depois no futuro em 2023 aparando e acurando as palavras antigas, tirando as poeiras do tempo e do esquecimento, conservando-as vivas, para me dizer que nunca é tarde pra se voltar no tempo e reescrever todas as histórias que um dia se começou, é indizível a sensação de enfim completar um poema, ainda que se leve dias ou mesmo anos, isso quando ainda existe aqueles que se formam dentro de nós mudos e nem foram escritos ainda pois precisam de tempo e espera pra se tornar poesia, amadurecer também se estende as palavras). 


quarta-feira, 28 de junho de 2023

 


Encaro paredes 

tateando formas de abraçar 

um rio corre lá fora 

mas é de meu corpo o barulho das águas 

Perdoem o que sou, digo

a beleza me matou antes

que eu me soubesse bonita

Perdoem o que sou, digo

eu choro a delicadeza de Rimbaud

pois também perdi a vida

Perdoem o que sou, digo

a verdade me escancarou

abri-me em janelas 

e estou fadada a olhar profundamente 

a terrível condição 

de morrer para sempre 

Perdoem o que sou, digo

é certo que todos temos

algo para amar

e é igualmente certo 

que amando verdadeiramente 

seremos ainda mais solitários 

porque e digo isso 

enfartada de vida interior

amar é antes de tudo 

escolher amar

Perdoem o que sou, digo

ainda ei de encontrar Dickinson

e ela me dirá alegre

que a beleza é a verdade

e que nisto somos irmãs.


P. F. Filipini.

(Obrigada por esse poema existir Pâmela).



 

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


Hilda Hilst.


quinta-feira, 22 de junho de 2023

 


Amargura no dia

amargura nas horas,

amargura no céu

depois da chuva,

amargura nas tuas mãos


amargura em todos os teus gestos.


Só não existe amargura

onde não existe o ser. 


Estão sendo atropelados 

em seus caminhos,

os que nada mais têm a encontrar.

Os que sentiram amargura de fel

escorrendo da boca,

os que tiveram os lábios

macerados de amor.

Estão terrivelmente sozinhos

os doidos, os tristes, os poetas. 


Só não morro de amargura

porque nem mais morrer eu sei. 


Hilda Hilst. 


quarta-feira, 14 de junho de 2023

 

Há um rio desaguando do meu peito sem parar 

Eu sempre transbordo profundidades incompreendidas 

Preciso deixar a enchente invadir tudo de mim

Sentir a violência da ruptura em cada gota

Mas ainda assim não me sinto molhada e lavada 

Enquanto as águas me levam eu estou queimando de dentro pra fora

Há tanta água saindo de mim mas não apaga o fogo

Enquanto derramo fico pensando como esse frio queima tanto 

Mistura de elementos e náusea 

O peito quer estourar as reservas acumuladas

Ao mesmo tempo que a água sai 

O buraco no meio do rio me leva pro fundo

Estou afogando e nunca aprendi a nadar

Eu desapareço morrendo nas águas do meu próprio coração 

De onde nunca mais vou retornar a superfície

Você vai me encontrar aqui? 

Adormecida debaixo das águas.