- Miss Nobody
- Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.
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Blogger news
If I can stop one heart from breaking,
I shall not live in vain;
If I can ease one life the aching,
Or cool one pain,
Or help one fainting robin
Unto his nest again,
I shall not live in vain.
Emily Dickinson.
Se eu puder evitar que um Coração padeça
Não viverei em vão.
Se eu fizer que na Vida alguém esqueça
A Dor ou a Aflição
Ou se ajudar um Pássaro caído
A retornar ao Ninho
Não viverei em vão.
Emily Dickinson
Tradução: José Lira.
Não viverei em vão, se puder
Salvar de partir-se um coração,
Se eu puder aliviar uma vida
Sofrida, ou abrandar uma dor,
Ou ajudar exangue passarinho
A subir de novo ao ninho —
Não viverei em vão.
Emily Dickinson
Tradução: Aíla de Oliveira Gomes.
Estou embrulhando um solstício para ti, sim, solstício
polpudo, plangente, vibrante e todo enfeitado em papel de sonho. Amarrei até um
laço, pendurei crucifixos, borrifei essência e na concha de meu seio vívido há uma
turma de passarinhos serelepes que vão junto na caixa; se és presente que
queres, então abra este pedaço de carne e veja o que achas. Ouvi dizer que tens
andado com um tédio buliçoso, que a preguiça de se reinventar pousou primeiro
no teu rosto e depois na tua horta de cebolinhas. Tem certeza que este vazio
não serve de linha para costura? Sei que sofre de lonjuras, que tudo arranha e
nada elucida, mas não se afobe… sabes que vai chegar lá, não é? A propósito,
mandei uma muda de amplidão, tecido de vida e iluminura, talvez lhe sirvam.
Neste inverno é bom agasalhar solidão.
Bru,
De brumas 🍃☁️.
(Lindo poema-carta escrito pela minha amiga Bruna, que me compartilhou em um momento de angústia e solidão, me trazendo ternura e lembranças das coisas doces, como a magia de um cobertor macio e quentinho que nos aquece e por um tempo nos esconde dos perigos lá fora e da dura realidade. Muitas vezes a vontade de viver falha, e admiro tanto mulheres como você que ainda se permitem ser sonhadoras e sensíveis num mundo e tempos tão difíceis como Amélie sabia. Esses dias minha psicóloga disse que sou subjetiva e que ela entende como algumas coisas desse mundo são difíceis para eu por em palavras normais e que alguns possam acompanhar, e disse que almas como a nossa são raras nesse mundo que além de sentir muito transformam os sentimentos em poesia, traduzem a alma, o secreto, o oculto, o invisível, que muitos escondem por não querer sentir. Obrigada amiga por tentar entender meus silêncios e meu tempo com esse meu jeito de me calar muitas vezes. Com certeza todas pessoas que me dedicam um poema, um livro, uma carta, uma imagem, um filme ou desenho, uma música ou um disco inteiro, uma playlist ou que me escreve a mão nem que seja um bilhetinho simples, tem um lugar especial no meu coração e para mim um significado como o mais delicado presente pra alma, palavras também importam, e pra mim como uma pessoa que existo através delas, que vivêncio elas, tudo é relevante).
"Isso se chama encarar a realidade, mas é isso que
Amélie não quer..."
♡
Bernardo é quase uma árvore
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
Incompletude?)
Manoel de Barros.
(Ser o Bernardo, se sentir tão íntimo em seu silêncio, que as coisas chegam até ele em seu estado de simplicidade com que ele corresponde aos seres e a vida, o respeito ao todo em que se faz parte. Um dia um professor de filosofia perguntou na sala de aula, se você pudesse escolher ter nascido outro ser vivo, o que você gostaria de ser? Houveram diversas repostas dentro do reino animal mas somente eu habitei o reino das plantas, eu disse então, "eu queria ser uma árvore", o professor ficou surpreso, talvez porque geralmente as pessoas usam as plantas de forma pejorativa nos últimos tempos pra identificar alguém que não faz nada ou é quieto demais em seu canto, de certo são tolos, não menos que um olhar despreparado como aqueles que olham um lugar verde e coberto pelo selvagem e só conseguem chamar de mato, ver só mato, daí a palavra triste, desmatamento. E eu escrevi o porque de eu querer ser árvore, tão somente pelo fato de me identificar com elas, onde o falar e fazer assume outras formas ocultas mas não menos expressivas. Ser árvore pode parecer solitário, já que meu espírito é desse tom arbóreo, mas árvores são sinônimos de abrigo, são receptoras das criaturas, servem aos seres que muitas vezes estão de passagem cansados e famintos, pertence às esperas sazonais, são sombras, tornam o ar mais fresco e puro, ensinam sobre o silêncio de continuar crescendo a partir de um mesmo lugar, sobre acima de tudo a resistência. Tenho maior respeito por esses seres tão ancestrais e sábios da terra, queria um dia abraçar um pinheiro, ou quem sabe estar perto de uma sequoia gigante, das árvores mais antigas do planeta, para me sentir pequena e insignificante da forma mais poética e humilde possível através de seres que paradas em seus lugares onde fincaram suas raízes suportaram as tempestades, as ventanias, o fogo, as mudanças climáticas e aprenderam renascer de si mesmas e a se defender de onde estão, entre inverno e primavera. Deve ser bom se saber enraizada em seu lugar de ser o que você nasceu pra ser, ou mesmo se enraizar em outro ser que lhe permita crescer como árvore inteira).
Mas o menino sumiu por muito tempo... E a Árvore ficou
tristonha outra vez.
Um dia, o menino veio e a Árvore estremeceu tamanha a sua
alegria, e disse: "Venha, Menino, venha subir no meu tronco, balançar-se
nos meus galhos e ser feliz."
"Estou muito ocupado pra subir em Árvores", disse
o menino. "Eu quero uma esposa, eu quero ter filhos e para isso é preciso
que eu tenha uma casa. Você tem uma casa pra me oferecer?"
"Eu não tenho casa", disse a Árvore. "Mas
corte os meus galhos, faça a sua casa e seja feliz."
O menino depressa cortou os galhos da Árvore e levou-os
embora para fazer uma casa.
E a Árvore ficou feliz!
O menino ficou longe por um longo, longo tempo, e no dia que
voltou, a Árvore ficou alegre, de uma alegria tamanha que mal podia falar.
"Venha, venha, meu Menino", sussurrou, "venha
brincar!"
"Estou velho para brincar", disse o menino,
"e estou também muito triste." "Eu quero um barco ligeiro que me
leve pra bem longe. Você tem algum barquinho que possa me oferecer?"
"Corte meu tronco e faça seu barco", disse a
Árvore. "Viaje pra longe e seja feliz!"
O menino cortou o tronco, fez um barco e viajou.
E a Árvore ficou feliz, mas não muito!
Muito tempo depois, o menino voltou.
"Desculpe, Menino", disse a Árvore. "não
tenho mais nada pra te oferecer. Os frutos já se foram."
"Meus dentes são fracos demais pra frutos", falou
o menino.
"Já se foram os galhos para você balançar", disse
a Árvore.
"Já não tenho idade pra me balançar", falou o
menino.
"Não tenho mais tronco pra você subir", disse a a
Árvore.
"Estou muito cansado e já não sei subir", falou o
menino.
"Eu bem que gostaria de ter qualquer coisa pra lhe
oferecer", suspirou a Árvore. "Mas nada me resta e eu sou apenas um
toco sem graça. Desculpe ..."
"Já não quero muita coisa", disse o menino, "só
um lugar sossegado onde possa me sentar, pois estou muito cansado."
"Pois bem", respondeu a Árvore, enchendo-se de
alegria. "Eu sou apenas um toco, mas um toco é muito útil pra sentar e
descansar."
Venha, Menino, depressa, sente-se em mim e descanse."
Foi o que o menino fez.
E a Árvore ficou feliz.
Shel Silverstein.
(Esses dias estava ouvindo uma música e entre os comentários sobre ela, alguém fazia conexão do título da música a essa história, como referência, não sei se conheci essa música antes ou depois do livro, mas até então eu não tinha associado os dois, e essa história também estava adormecida em mim. O fato é que conheci o livro "A árvore generosa" em meados de 2017, é um livro curto como se pode ver e tinha ilustrações, o que sei é que ele me afetou de alguma forma, sua melancolia mexeu comigo, eu me senti aquela árvore, me imaginei em sua solidão enquanto todas as suas partes iam embora. É muito claro que a relação da humanidade com a natureza tem trilhado por esses caminhos, isso quando a própria sociedade e seus iguais pode ser vista dessa maneira, uns com os outros. Assim que terminei de ler comecei transcrever pra esse cantinho aqui mas de alguma forma não consegui terminar e deixei ele quieto. É um livro mais do que necessário, a música diz "a gente sempre espera piorar, a gente sempre deixa de cuidar do que já tem na mão..." Tanto da natureza como dos próprios humanos, "por culpa do depois". É uma verdade muito triste, talvez por isso me afetou tanto em minha solidão, deixo aqui algo que é o oposto desse livro e do qual tenho muito carinho por existir, é outro livrinho curto e delicadamente ilustrado também chamado de "O homem que plantava árvores". É uma história tão enriquecedora quanto, eu a conheci através de um curta metragem de animação, tipo de desenhos com histórias curtas que me abraçam muito com a singeleza de suas histórias que nos marcam com tão pouco tempo, e me encantou e me lembrou do meu avô, das pessoas simples do campo, do silêncio e da espera, da solidão de semear, da esperança, como uma semente para o amanhã, uma semente em que mais do que tudo você precisa acreditar. Anos depois ao acaso encontrei o livro em uma livraria, tão grande foi minha emoção em tocar e saber dele palpável e que haviam traduzido uma história tão especial para o coração de quem deixa as terras serem abertas para a semente entrar).
Tenho um livro sobre águas e
meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe
disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe
disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O
menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe
reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o
tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o
tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No
escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O
menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi
capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe
reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você
vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Manoel de Barros.
Uso a palavra para compor meus
silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um
formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros.
(Meu poema favorito do senhor Manoelzinho).
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho
Eles passarão...
Eu passarinho!
Mário Quintana.
Como a canção de um pequeno pássaro diante do mundo e me valendo daquilo que Clarice Lispector um dia escreveu. "Porque há o direito ao grito. Então eu grito".
Eu passarinho!
Eu passarinho!
Eu passarinho!
EU PASSARINHO!
EU,
PASSARINHO.
É como um sussurro desse velho amigo poeta, passe devagarinho mesmo, menina passarinha. Sobre o conforto de se demorar um pouquinho enquanto todos se esbarram, e se tropeçam uns nos outros.
♡.